terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

A MOSCA AZUL

Da série Bastidores do Varejo, de Sergio Muller.


Volta e meia eu cito nos meus artigos que “uma loja não quebra por vender pouco e sim por comprar muito”... E a toda hora, em cada consultoria, eu vejo este filme. Parece uma desgraça que passa de lojista para lojista. E não aprendem, pois a todo o momento mais um é admitido no grupo.

O empresário paranaense, dono de sete boas lojas no segmento calçadista, era feliz e não sabia. Com estoques controlados para quatro meses e meio de cobertura, vinha crescendo regularmente não muito, mas o suficiente. Seus recebíveis cobriam as contas e no final lhe sobrava uns 5%, não muito, mas o suficiente.

Durante algum tempo assim ficou. Até que uma mosquinha azul lhe picou a vaidade e soprou em seu ouvido que as vendas poderiam ser bem melhores se ele fosse mais atrevido. “Saia da zona de conforto” disse ela. “Amplie e diversifique, ponha mais estoque nas prateleiras”, complementou a maldita mosquinha.

Esta é uma hora em que o empresário precisa distinguir se está acomodado ou tem que acelerar os negócios. Sabe-se que dirigindo a oitenta se demora mais a chegar ao destino, porém se chega com mais segurança. Acelerando se chega mais rápido, porém propenso a acidentes. E alguns gostam de correr este risco...

A ocasião era oportuna, pois se aproximava o Natal. E então as transportadoras não paravam de descarregar volumes nas suas lojas. Os gerentes estavam em êxtase e os vendedores vibravam de alegria já prevendo melhores comissões. As gondolas ficaram obesas e as prateleiras do depósito ganharam mais tábuas...

E parecia que a coisa ia deslanchar. Mas na arrancada do primeiro mês, em novembro e já navegando com quase o dobro de estoque, as vendas cresceram 12% e em Dezembro se manteve nesta ordem. Ora, não era bem isso que se esperava. E agora? O ano acabara, mas o estoque não, pois ainda estava lá com seu peso e volume inerte nos fundos da loja. E o empresário sabia que no primeiro trimestre do ano as “vacas magras” estariam presentes.

E o cara de óculos da contabilidade avisou sutilmente ao patrão que os recebimentos seriam ingratos com os fornecedores e talvez com outras contas da casa.

Nessa hora o empresário só tem duas cartas no jogo. A mais corriqueira, que é sempre o principio do fim, é pedir ao banco que tape o buraco. A outra carta era buscar dinheiro na própria loja liquidando generosamente a gordura do estoque. E o empresário, do jeito que estava, preferiu usar as duas, pois provavelmente uma só não resolvesse. Era aquele momento que o consumidor vê na vitrina cartazes imensos dizendo “tudo a preço de fábrica”...

O resto da historia os lojistas experientes já sabem. De um empréstimo pra outro foi um pulo. As margens, com tantos descontos, desceram a ladeira... De um ano pra outro, simples assim...

smuller48@hotmail.com