Da série BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Muller
Muito se fala que o maior patrimônio de uma empresa é a sua gente, mas não queira saber se isto é uma afirmação que se leva ao pé da letra. Afinal, qual empresário não é obrigado a dizer tal coisa ao mercado? Faz parte isto, evidente, daquelas coisas que soam bem aos ouvidos dos outros e rende bons dividendos a quem diz. Como o mercado acredita piamente em frases feitas, também credita valor, acima da média, ao farsante que isto divulga.
Um dos sintomas primeiros para encarar se isto é uma realidade existente, é medir o nível de satisfação dos funcionários de uma empresa qualquer. O problema é que raramente as empresas, precavidas, são adeptas de pesquisarem este fator. Sabem elas, em sua grande maioria, que não se deve despertar o pessoal com pesquisas, as quais já sabem, de antemão, as respostas.
Uma coisa é o subordinado ter anseios e necessidades na empresa, em grande parte, coisas de natureza bem simples, e lamentar que estes carências não cheguem aos ouvidos do seu superior. Isto, então, é uma coisa na qual ele fica conformado. A outra coisa, imensamente distinta, é o subordinado saber que o superior sabe das suas carências que, se supridas, o deixaria satisfeito e feliz. Ora, se o superior sabe e não supre, então isto é uma coisa que o deixaria muito decepcionado. E a diferença entre conformado e decepcionado é, no seio da empresa, algo assim como a distancia entre a Terra e o Sol.
Imagine uma empresa com, por exemplo, uma centena de funcionários decepcionados? Será que esta centena de subordinados frustrados não leva à ruina uma empresa? É claro que leva e os empresários disso sabem muito bem. Por isto, são avessos a perguntas múltiplas com respostas anônimas. Melhor fazem se perguntam, cara a cara, a algum funcionário se ele está feliz na empresa. Imbecil daquele não responde afirmativamente, porque além de insatisfeito, vai ficar desempregado.
Certa vez, em um trabalho de consultoria numa rede de varejo com dezenas de lojas, estava em curso, por parte de uma agência de publicidade e serviços, uma extensa pesquisa de satisfação dos funcionários. Era, naquele momento, o “peixe” que a tal agência estava vendendo, pois, como se sabe, a maioria dessas empresas “pousa” pouco tempo com seus clientes. Então, fazem o barulho, não criam intimidade, faturam e partem pra outra...
Minha atividade nada tinha a ver com o tal evento, mas, no entanto, como eu já “tinha visto aquele filme”, minha bola de cristal pressentiu que o que não era bom poderia ficar pior. Senti-me obrigado a alertar sobre os riscos aos dois sócios da empresa, pai e filho, este último recém-saído dos bancos universitários da propaganda e “iluminado” por ideias inovadoras. Tinham eles quase mil funcionários, digamos conformados, e estavam por cutucar o adormecido exército de Átila. Mas, mesmo assim, “mandaram bala” no tal projeto, pois talvez quisessem se certificar que a empresa deles era o Paraiso na terra. Como Pôncio, lavei as mãos, pois sei que outra frase bem feita é “o cliente sempre tem razão”...
Assim, concedido o direito a um milhar de anônimos darem seu “pitaco” na empresa, enredaram-se eles na burocracia da pesquisa e, entre preenchimentos, envios, recebimentos, tabulações, etc e tal, passaram-se lá uns três meses, coincidentemente quando eu lá voltava para outro estágio do meu trabalho. O coitado do pai ficou com a bomba na mão, pois o filho, naquelas alturas do campeonato, já estava envolvido em outro projeto arrojado, agora na companhia de outra empresa de criação. A anterior, aquela da maravilhosa pesquisa, já tinha passado no caixa e recebido o seu quinhão, pois afinal não a contrataram para fazer os funcionários felizes e sim para saber se estavam ou não. Na prática, eles tocaram fogo no rastilho e não esperaram a dinamite explodir. Pois, voltando ao pai, imerso em relatórios, loja por loja, setor por setor, gerente por gerente e, meu Deus, reivindicações a granel, desde fogão no refeitório, bebedouro com água gelada na loja até o uniforme que era um trapo. E isso era ainda era nada, tinha ainda a comissão que era um absurdo de pouco, o gerente que era imoral, o banheiro que era pra porco e mais uma infindável lista de coisas que nem em cem anos seriam atendidas. E o pior de tudo, botaram fermento na expectativa daquele povo.
Pois, senhoras e senhores, falando em expectativa, a do velho pai era zero em satisfazer o seu contingente, pois além da decepção em si que tinha sofrido, nem havia capital suficiente para corrigir vinte por cento dos problemas que tinham. Talvez, em todo o enredo, mais frustrado tivesse ficado ele e muito provavelmente tenha sido ele a maior vítima de todo o contexto.
“Arquive-se” foi o post-it colado nas capas de tantos papéis. Pagaram tributo por abrir a porta aos piratas...

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