quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

FECHE ESTA MALDITA PORTA!

Da série BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Muller
O assunto sobre relacionamento com o cliente que, volta e meia, publico em meu blog, rende comentários constantes. Alguns lojistas me perguntam se este ou aquele software sobre relacionamentos é recomendado, quais livros são convenientes, essas coisas do gênero. Costumo indicar alguns, mas, para mim, o fundamental é que sejam usados e que o lojista não entregue o seu uso a terceiros, pois se há algo fundamental num pequeno e médio negócio será certamente não delegar o relacionamento com os clientes.
Sei de lojistas que possuem um ótimo sistema de informações sobre clientes, mas, no entanto, raramente fazem uso pessoal, deixando a tarefa a cargo de subordinados, o que, convenhamos, é delegar o indelegável. Costumo dizer que o empresário, por força das contingencias, pode entregar quase tudo aos seus funcionários, mas jamais ele pode perder de vista a intimidade com os seus clientes.
Meu caro dono de loja, se você está interessado em agregar valor para os seus clientes, no sentido de buscar fidelidade, entre no Google e procure qualquer tópico relacionado com o Valor dos Clientes e constate você mesmo que, infelizmente, não há nada de novo e nem nenhum milagre para ser feito. Você vai encontrar muita coisa, é claro, mas, no entanto, as mesmas abobrinhas importadas de sempre ou conselhos carregados de teorias universitárias que só farão você sonhar e gastar o seu tempo. Aliás, tenho a impressão que a maior parte da literatura da área é escrita por quem nunca encostou a barriga no balcão de uma loja.
Cada vez mais me convenço que, para os lojistas de pequeno e médio porte, não há coisa melhor a fazer do que tomar uma atitude definitiva no sentido de compreender e estudar os clientes de sua empresa, nem que seja com anotações num caderno, pois do jeito que eu tenho visto por aí, a situação é caótica. Não tenha esperança também que assistindo a palestras de duas horas ou lendo um livro de trezentas páginas sobre o assunto, vai lhe resolver o problema.
Os lojistas se distraem comprando, vendendo e arrumando suas lojas que acabam esquecendo o ator principal da peça, justamente àquele para o qual ele faz todas essas coisas: o cliente. 
Só há uma pessoa capaz de remover, de uma vez por todas, este obstáculo: você, unicamente você. Quando você enfrentar com tenacidade e persistência este assunto, logo a sua equipe verá sinceridade nisto e esquecerá o que era dito da “boca pra fora” que “os clientes são seu maior patrimônio”. De palavras, os empregados estão cheios e o que eles querem é que o patrão dê o exemplo.
Vejo também muitos lojistas com certo interesse de instalar um programa de relacionamento com os clientes, mas antes de tudo acredito que deva o lojista refletir se ele também vai instalar, na sua cabeça e na de seu pessoal, uma nova consciência sobre o assunto. Confesso que já vi lojistas especialistas na arte sem ter algum programa do gênero e, por outro lado, também vi lojistas com sofisticados programas de relacionamento virados em sucata eletrônica em seus sistemas.
Certa ocasião, ao encerrar um dia de consultoria, perguntei à proprietária de uma pequena loja, quantas clientes haviam entrado no seu estabelecimento. Disse-me ela que haviam entrado poucas, “mais ou menos umas vinte, pois a venda tinha sido muito baixa”. Pressionei-a por mais respostas e confessou-me ela que das “mais ou menos vinte” só conhecia “umas duas”. No entanto, nem destas duas ela tinha informações detalhadas, quanto mais das “mais ou menos dezoito”. Perguntei se ela estava satisfeita com as vendas e me rebateu afirmando, sem vergonha nenhuma, que estava com muita vontade de vender o ponto, pois as dívidas estavam saindo pelo gargalo. Não eram de graça os comentários, pois lojas iguais aquela estão por aí quebrando às centenas, uns dizendo que é problema de ponto, outros que é a concorrência e mais uns que atiram a culpa sobre os impostos e por ai se vão às desculpas esfarrapadas.
E aquela proprietária que se conforme, pois não estará sozinha nesta desgraça e pode ter ela a certeza que muitos outros “infortunados” estão, neste momento, botando cartazes nas vitrines “vendendo o ponto” ou sugerindo que os clientes “aproveitem porque vai fechar”.
Quer admitam ou não, sem dourar a pílula, tudo isto é prova de pura incompetência no trato com a clientela, aliás, é a resposta adequada que estes clientes estão dando ao lojista, do tipo “se você não sabe me conquistar, então feche esta maldita porta”.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

ESTÃO TERCEIRIZANDO A MOTIVAÇÃO?

Com certeza, ainda não inventaram tudo nesta vida, pois a cada novo dia algo surge como a novidade da hora ou a grande invenção do momento. Dentro deste contexto, foi com grande surpresa que concluí que estão terceirizando a motivação no ambiente de algumas empresas. Nada contra a ideia, mas acho que esta é uma prova de que os empresários estão ficando negligentes com os seus recursos humanos.

Não há quem atualmente não queira terceirizar alguma coisa, alguns sob o objetivo de reduzir determinados custos e outros sob o pretexto de aliviar o peso da carga e da responsabilidade. Assim, neste modelo, até mesmo o governo entrega à ONGs duvidosas aquilo que seria de sua inteira obrigação, desde cursinhos de violão nas favelas até cuidados com os índios nas suas reservas.   E o exemplo certamente está sendo copiado ao exagero.

Recentemente, ao analisar um trabalho a ser feito na rentabilidade de uma empresa, constatei a existência de um projeto que visava motivar seus funcionários. Poderíamos dizer a principio que era louvável a iniciativa da direção, mas se fossemos descobrir que o projeto consistia na realização de várias palestras sobre a tal motivação, certamente ficaríamos com um pé atrás. Afinal, qualquer jumento sabe que a motivação nasce e se cria no seio da empresa, fruto de salários coerentes, bom ambiente e perspectivas de crescimento, mas, talvez pela ausência dessas virtudes, se justifiquem as tentativas para que ela venha, contraditoriamente, de fora.
Cá para nós, uma utopia...

O rol de palestrantes era exatamente o mesmo que muitas empresas estão contratando por ai afora. Assim, mágicos, treinadores de futebol, humoristas e mais um trupe de “artistas” estavam escalados para fazer aquele povo motivado e feliz, de forma que pudessem eles, após cada palestra, render muito mais à empresa, talvez até amando-a perdidamente...

Eu fico pensando se alguns empresários são inocentes, iludidos ou negligentes, pois outras opções, nesse caso, inexistem. Chega a ser burlesco pensar que palestras com palhaços que provocam duas horas de risadas no povo, vai trazer duradouros benefícios ao ambiente da empresa. Se até mesmo as boas palestras de profissionais competentes custam a ser “sintonizadas” pela plateia, quais as esperanças de que o mágico engraçado possa ser o remédio para curar funcionários desmotivados?

Ora, parem de dar dinheiro para os palhaços de fora e invistam este capital naqueles que vocês  acham que são os palhaços de dentro!


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

TODO CHEFE BONZINHO É UM TROUXA!

Da série BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Muller

A bondade nas empresas é uma virtude perversa aos seus próprios resultados. Para quem tem malícia nos negócios é uma frase coerente e aceitável. No entanto, seria uma estranha observação ao ouvido dos inocentes, principalmente daqueles que praticam a bondade excessiva no ambiente de uma empresa.

A generosidade exagerada de um chefe, geralmente, está acompanhada de uma parceria funesta chamada negligência. De forma mais clara, equivale a dizer que todo bonzinho é um frouxo. De forma mais enigmática, toda a frouxidão produz espertos sócios anônimos. De forma mais contundente, todo o descontrole existente em uma empresa pode resultar em colaboradores desonestos.

Não será a primeira vez, nem a última, em que vejo situações iguais a esta por aí afora. Coisas semelhantes a este contexto acontecem muito mais do que imaginamos nos bastidores das empresas, é claro, principalmente nas pequenas, daquelas de um só patrão.

 A primeira vez a gente nunca esquece. E jamais me sairá da lembrança quando, ao diagnosticar os prejuízos constantes de uma empresa, verifiquei que, dos vinte e um funcionários de uma loja, nove a estavam literalmente afundando-a. Um verdadeiro saque a um negligente lojista que julgava viver em uma casinha feliz com seus protegidos.

Ocorrem fatos em empresas, deste perfil, que a um primeiro olhar pareceriam insólitos e os entenderiam melhor os psicólogos que estudam o comportamento dos seres humanos.

Certa vez acompanhei uma enquete que pesquisava como reagiriam dez funcionários de uma pequena empresa, caso um chefe bondoso perdesse, propositadamente, uma nota de 100 reais em um canto qualquer da empresa. A questão era: quantos, dos dez, devolveriam a nota.

Pois bem, mais de setenta por cento dos entrevistados, disseram que menos de três funcionários a devolveriam.

Eles responderam também, dentro do mesmo exemplo, outra questão: quantos, dos dez, devolveriam a nota, caso o chefe fosse autoritário e inflexível.

E então, os mesmos setenta por cento, mais de sete, opinaram que ela seria devolvida ao chefe durão.

É uma estranha matemática de reações em que a bondade se paga com a traição e o rigor se paga com a bondade.  O medo faria com que as pessoas fossem confiáveis? O descontrole em uma empresa transformaria pessoas em potenciais aproveitadores? A lealdade é fruto de rigorosos controles? Estas são questões que merecem um profundo reflexo e que, normalmente, teriam respostas bem avessas àquelas que esperam inocentes patrões.

O produto pode ser ótimo. As margens podem ser boas. Os custos podem ser baixos. Os clientes podem ser em bom número. Mas nada disso adianta se o principio ativo do negócio tiver em sua fórmula um cego e inocente paternalismo. 

Mande uma mensagem para o autor: smuller48@hotmail.com