Da série BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Muller
A bondade nas empresas é uma virtude perversa aos seus próprios resultados. Para quem tem malícia nos negócios é uma frase coerente e aceitável. No entanto, seria uma estranha observação ao ouvido dos inocentes, principalmente daqueles que praticam a bondade excessiva no ambiente de uma empresa.
A generosidade exagerada de um chefe, geralmente, está acompanhada de uma parceria funesta chamada negligência. De forma mais clara, equivale a dizer que todo bonzinho é um frouxo. De forma mais enigmática, toda a frouxidão produz espertos sócios anônimos. De forma mais contundente, todo o descontrole existente em uma empresa pode resultar em colaboradores desonestos.
Não será a primeira vez, nem a última, em que vejo situações iguais a esta por aí afora. Coisas semelhantes a este contexto acontecem muito mais do que imaginamos nos bastidores das empresas, é claro, principalmente nas pequenas, daquelas de um só patrão.
A primeira vez a gente nunca esquece. E jamais me sairá da lembrança quando, ao diagnosticar os prejuízos constantes de uma empresa, verifiquei que, dos vinte e um funcionários de uma loja, nove a estavam literalmente afundando-a. Um verdadeiro saque a um negligente lojista que julgava viver em uma casinha feliz com seus protegidos.
Ocorrem fatos em empresas, deste perfil, que a um primeiro olhar pareceriam insólitos e os entenderiam melhor os psicólogos que estudam o comportamento dos seres humanos.
Certa vez acompanhei uma enquete que pesquisava como reagiriam dez funcionários de uma pequena empresa, caso um chefe bondoso perdesse, propositadamente, uma nota de 100 reais em um canto qualquer da empresa. A questão era: quantos, dos dez, devolveriam a nota.
Pois bem, mais de setenta por cento dos entrevistados, disseram que menos de três funcionários a devolveriam.
Eles responderam também, dentro do mesmo exemplo, outra questão: quantos, dos dez, devolveriam a nota, caso o chefe fosse autoritário e inflexível.
E então, os mesmos setenta por cento, mais de sete, opinaram que ela seria devolvida ao chefe durão.
É uma estranha matemática de reações em que a bondade se paga com a traição e o rigor se paga com a bondade. O medo faria com que as pessoas fossem confiáveis? O descontrole em uma empresa transformaria pessoas em potenciais aproveitadores? A lealdade é fruto de rigorosos controles? Estas são questões que merecem um profundo reflexo e que, normalmente, teriam respostas bem avessas àquelas que esperam inocentes patrões.
O produto pode ser ótimo. As margens podem ser boas. Os custos podem ser baixos. Os clientes podem ser em bom número. Mas nada disso adianta se o principio ativo do negócio tiver em sua fórmula um cego e inocente paternalismo.
Mande uma mensagem para o autor: smuller48@hotmail.com

Nenhum comentário:
Postar um comentário