Como dizem os
especialistas, existem muitas perdas em uma empresa, mas nunca uma tão cara
quanto aquela em que se perde tempo. Durante muito tempo, na condição de
gerente de uma distante filial, rodei quilômetros e mais quilômetros para
participar de reuniões em que a empresa desperdiçava este bem precioso, o
tempo. Aprendi tanto, por estas linhas tortas, que quando chegou a minha vez de
coordenar reuniões, as procurei fazer pelo lado avesso daquelas que participava
antes.
Mas, ainda hoje, nas
minhas peregrinações como Consultor de Empresas, continuo tendo o desprazer de
assistir reuniões tão inúteis quanto aquelas do meu passado. Viajar é preciso,
com certeza, mas cabe investigar um pouco mais as verdadeiras razões para que
isto aconteça.
Há inúmeros métodos que
usam as empresas para esta convergência de gerentes a um único ponto. Um dos
mais comuns são as reuniões bimestrais intercaladas com algumas que tratam do
lançamento de grandes campanhas ou promoções. Como estas são comuns,
procuraremos abordar alguns aspectos pertinentes a elas. Mas antes, para que se
tenha uma melhor comodidade na compreensão do capitulo, seria oportuno contar
uma das minhas histórias reais do varejo. Vamos a ela:
Certa vez, quando eu
atuava numa consultoria, fui convidado a participar de uma reunião geral com os
gerentes das filiais. A empresa, uma rede de umas trinta e poucas lojas, atuava
no segmento de confecções e calçados e pertencia a um bom empresário, que, além
de cliente, era um amigo de longa data. Participariam da tal reunião, todos os
gerentes de filiais e mais os integrantes do staff da empresa, diretor,
compradores e gerentes de outras áreas.
A empresa, naquele
momento, atravessava uma fase de tímidos crescimentos, com altos e baixos em
suas unidades. Havia uma agenda definida e, pela manhã, com exceção do diretor,
teriam os demais em torno de quinze minutos para expressar seus assuntos.
Durante toda a tarde haveria trabalhos motivacionais com o grupo. Até aí, tudo
bem. Havia realmente uma perspectiva de uma boa reunião. É claro, faltava
ainda, evidentemente, apreciar o seu conteúdo.
Um a um sucediam-se os
compradores na apresentação de suas exposições, todas estas voltadas para suas
especialidades. Nada mais além do que a demonstração trivial dos números de
seus setores. E todos, sem exceção, exortavam o grupo com frases do tipo vamos
“pegar juntos, contamos com vocês, agora vai” e assim outras tantas mensagens
do gênero, daquelas que nem entram por um ouvido e nem saem por outro. Percebia-se nitidamente que aceleravam seus
assuntos como se estivessem com uma batata quente na mão. Afinal quem quer
perigosas réplicas na presença do seu superior?
Dos trinta e tantos
gerentes de lojas, uma meia dúzia se pronunciou sobre os temas, mas, no entanto,
nada que à reunião trouxesse valor. Esperava-se então que o diretor tirasse os
participantes daquele marasmo. De fato acordou, mas, entretanto pelo respeito,
pois não trouxe ninguém ao delírio.
Acrescentou ele ao evento, um arrastado monólogo sobre sua insatisfação
com os resultados das vendas, ora responsabilizando os gerentes, a economia e
até o clima. Perdia a oportunidade de anunciar estratégias ou inovações que
pudessem agregar melhorias no desempenho. Os gerentes pareciam imaginar um
placar eletrônico, na espera ansiosa que o primeiro tempo logo encerrasse e
antes também, como de praxe, que o diretor escolhesse uma vítima para
descarregar o stress.
Decididamente estava a
manhã completamente perdida. Esperava-se que o segundo tempo do jogo pudesse
compensar os milhares de quilômetros somados com as viagens de todos.
Depois do almoço, quando
recomeçou a reunião, lá estava eu na expectativa de que as coisas melhorassem.
No entanto, caros amigos, existem coisas que se fazem nas empresas que nenhuma
vã filosofia consegue entender. E uma delas são estes artifícios mágicos com os
quais se pensa que se motivam as pessoas. E o pior é que gastam dinheiro na
contratação de aproveitadores da ingenuidade alheia, ou melhor, de empresas
incautas, na tola ilusão de que homens-show e teatrinhos vão fazer com que seus
gerentes se entusiasmem inesperadamente.
E foi exatamente nesta
ilusão, sob a batuta de um palestrante, que ensaiaram um coral de vozes
imitando crianças. E foi assim que os gerentes imitaram passarinhos, andando em
círculos e sacudindo os braços como se asinhas tivessem. E, alegres como
crianças com pirulitos, aceitaram tesouras para cortarem jornais fazendo
figurinhas e esculturas. E sempre incentivados pela eloquência vibrante do seu
palestrante.
Por fim, cada qual com a
letra na mão, cantaram o hino da empresa. E ponto final, encerravam-se os
trabalhos. Ora, reuniões como essas são uma dádiva de Deus para os
incompetentes e fazem realmente os gerentes felizes, principalmente aqueles que
teriam resultados a explicar. Quanto mais tempo passarem com estas futilidades,
melhor. E o irônico, não se apercebendo do verdadeiro motivo da aceitação dos
gerentes, é que, dentro em breve, os organizadores tendem a repetir o
cirquinho. Na prática, a empresa finge que os motiva e os gerentes se fazem de
motivados.
Muitas empresas
desperdiçam tempo e dinheiro em reuniões, em palestras e em cursos que não
levam a caminho nenhum. Nada mais do que umas boas risadas na hora e nada mais
na memória depois. Não serão as banalidades de algumas horas que transformarão
seus homens. Não serão as reuniões infrutíferas e inúteis que os motivarão a
buscar resultados. A motivação não deve ser paga a ninguém para trazê-la. A
motivação nasce dentro da casa, com salários em dia e um bom ambiente para se
trabalhar. A empresa entrega isto aos gerentes e, em troca, recebe bons
resultados. Caso não se ganhe o retorno esperado, não é justo que se continue
dando sem receber. Alguém tem que pagar o preço do fracasso ou, pelo menos,
explicar os motivos do mesmo. Isto sim é o que vale. E se alguém não estiver
contente com isto, que peça para desembarcar.
Gerentes não precisam de
teatros, a não ser que queiram lazer. Nas empresas, o que os gerentes precisam
é de palavras que podem ser duras, mas transparentes, que podem doer, mas que
são remédios. Os empresários não têm que se preocupar em fazer reuniões
felizes, basta que tenham objetivos e que sejam produtivas.
Algumas empresas já
atentaram para estes fatos e realizam reuniões de gerentes com grupos
distintos, como as que eu tive oportunidade de assistir em uma rede paulista de
calçados. Lá, eles entendem que as reuniões precisam ser valorizadas, pois
tempo é muito dinheiro. Por exemplo, decidem, de forma consciente, que é
imprescindível que há muito mais a dizer somente para os gerentes que apresentam
prejuízos. Então, eles reúnem este grupo especifico para tratar os seus problemas
e definir estratégias locais. E me argumentaram mais ainda:
- Será que o conteúdo destas reuniões requer as presenças dos gerentes que estão tendo lucro?
- Exagerando, será que aqueles que merecem louvores, deveriam comparecer em uma espinhosa reunião sobre os prejuízos?
- Não seria melhor premiar os gerentes lucrativos com a permanência em suas cidades?
- Será que com menos pessoas não haveria mais foco e maior compromisso na solução dos problemas.
- Longos discursos sobre o quanto a empresa está insatisfeita não resolvem absolutamente nada. Há que individualizar os grupos e tratar, tecnicamente, os problemas de cada um.
É claro que os gerentes
bem sucedidos comparecem à matriz e participam igualmente de reuniões sobre os
resultados, mas não com a frequência dos outros. Outra ação muito interessante,
no sentido da racionalidade, também é executada naquela organização. O foco do
staff, diretores, compradores e demais, é dirigido para os gerentes com
prejuízos em suas filiais e, também eles, são menos frequentes naquelas lojas
lucrativas. Simples e objetivo.
Será que os Recursos
Humanos das empresas que planejam reuniões há tanto tempo, ainda não se deram
conta de suas mesmices?

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