sábado, 15 de março de 2014

A FARSA DAS REUNIÕES...

Como dizem os especialistas, existem muitas perdas em uma empresa, mas nunca uma tão cara quanto aquela em que se perde tempo. Durante muito tempo, na condição de gerente de uma distante filial, rodei quilômetros e mais quilômetros para participar de reuniões em que a empresa desperdiçava este bem precioso, o tempo. Aprendi tanto, por estas linhas tortas, que quando chegou a minha vez de coordenar reuniões, as procurei fazer pelo lado avesso daquelas que participava antes.
  
Mas, ainda hoje, nas minhas peregrinações como Consultor de Empresas, continuo tendo o desprazer de assistir reuniões tão inúteis quanto aquelas do meu passado. Viajar é preciso, com certeza, mas cabe investigar um pouco mais as verdadeiras razões para que isto aconteça.

Há inúmeros métodos que usam as empresas para esta convergência de gerentes a um único ponto. Um dos mais comuns são as reuniões bimestrais intercaladas com algumas que tratam do lançamento de grandes campanhas ou promoções. Como estas são comuns, procuraremos abordar alguns aspectos pertinentes a elas. Mas antes, para que se tenha uma melhor comodidade na compreensão do capitulo, seria oportuno contar uma das minhas histórias reais do varejo. Vamos a ela:

Certa vez, quando eu atuava numa consultoria, fui convidado a participar de uma reunião geral com os gerentes das filiais. A empresa, uma rede de umas trinta e poucas lojas, atuava no segmento de confecções e calçados e pertencia a um bom empresário, que, além de cliente, era um amigo de longa data. Participariam da tal reunião, todos os gerentes de filiais e mais os integrantes do staff da empresa, diretor, compradores e gerentes de outras áreas.

A empresa, naquele momento, atravessava uma fase de tímidos crescimentos, com altos e baixos em suas unidades. Havia uma agenda definida e, pela manhã, com exceção do diretor, teriam os demais em torno de quinze minutos para expressar seus assuntos. Durante toda a tarde haveria trabalhos motivacionais com o grupo. Até aí, tudo bem. Havia realmente uma perspectiva de uma boa reunião. É claro, faltava ainda, evidentemente, apreciar o seu conteúdo.

Um a um sucediam-se os compradores na apresentação de suas exposições, todas estas voltadas para suas especialidades. Nada mais além do que a demonstração trivial dos números de seus setores. E todos, sem exceção, exortavam o grupo com frases do tipo vamos “pegar juntos, contamos com vocês, agora vai” e assim outras tantas mensagens do gênero, daquelas que nem entram por um ouvido e nem saem por outro.  Percebia-se nitidamente que aceleravam seus assuntos como se estivessem com uma batata quente na mão. Afinal quem quer perigosas réplicas na presença do seu superior?

Dos trinta e tantos gerentes de lojas, uma meia dúzia se pronunciou sobre os temas, mas, no entanto, nada que à reunião trouxesse valor. Esperava-se então que o diretor tirasse os participantes daquele marasmo. De fato acordou, mas, entretanto pelo respeito, pois não trouxe ninguém ao delírio.  Acrescentou ele ao evento, um arrastado monólogo sobre sua insatisfação com os resultados das vendas, ora responsabilizando os gerentes, a economia e até o clima. Perdia a oportunidade de anunciar estratégias ou inovações que pudessem agregar melhorias no desempenho. Os gerentes pareciam imaginar um placar eletrônico, na espera ansiosa que o primeiro tempo logo encerrasse e antes também, como de praxe, que o diretor escolhesse uma vítima para descarregar o stress.

Decididamente estava a manhã completamente perdida. Esperava-se que o segundo tempo do jogo pudesse compensar os milhares de quilômetros somados com as viagens de todos.
  
Depois do almoço, quando recomeçou a reunião, lá estava eu na expectativa de que as coisas melhorassem. No entanto, caros amigos, existem coisas que se fazem nas empresas que nenhuma vã filosofia consegue entender. E uma delas são estes artifícios mágicos com os quais se pensa que se motivam as pessoas. E o pior é que gastam dinheiro na contratação de aproveitadores da ingenuidade alheia, ou melhor, de empresas incautas, na tola ilusão de que homens-show e teatrinhos vão fazer com que seus gerentes se entusiasmem inesperadamente.

E foi exatamente nesta ilusão, sob a batuta de um palestrante, que ensaiaram um coral de vozes imitando crianças. E foi assim que os gerentes imitaram passarinhos, andando em círculos e sacudindo os braços como se asinhas tivessem. E, alegres como crianças com pirulitos, aceitaram tesouras para cortarem jornais fazendo figurinhas e esculturas. E sempre incentivados pela eloquência vibrante do seu palestrante.

Por fim, cada qual com a letra na mão, cantaram o hino da empresa. E ponto final, encerravam-se os trabalhos. Ora, reuniões como essas são uma dádiva de Deus para os incompetentes e fazem realmente os gerentes felizes, principalmente aqueles que teriam resultados a explicar. Quanto mais tempo passarem com estas futilidades, melhor. E o irônico, não se apercebendo do verdadeiro motivo da aceitação dos gerentes, é que, dentro em breve, os organizadores tendem a repetir o cirquinho. Na prática, a empresa finge que os motiva e os gerentes se fazem de motivados.

Muitas empresas desperdiçam tempo e dinheiro em reuniões, em palestras e em cursos que não levam a caminho nenhum. Nada mais do que umas boas risadas na hora e nada mais na memória depois. Não serão as banalidades de algumas horas que transformarão seus homens. Não serão as reuniões infrutíferas e inúteis que os motivarão a buscar resultados. A motivação não deve ser paga a ninguém para trazê-la. A motivação nasce dentro da casa, com salários em dia e um bom ambiente para se trabalhar. A empresa entrega isto aos gerentes e, em troca, recebe bons resultados. Caso não se ganhe o retorno esperado, não é justo que se continue dando sem receber. Alguém tem que pagar o preço do fracasso ou, pelo menos, explicar os motivos do mesmo. Isto sim é o que vale. E se alguém não estiver contente com isto, que peça para desembarcar.

           
Gerentes não precisam de teatros, a não ser que queiram lazer. Nas empresas, o que os gerentes precisam é de palavras que podem ser duras, mas transparentes, que podem doer, mas que são remédios. Os empresários não têm que se preocupar em fazer reuniões felizes, basta que tenham objetivos e que sejam produtivas.

Algumas empresas já atentaram para estes fatos e realizam reuniões de gerentes com grupos distintos, como as que eu tive oportunidade de assistir em uma rede paulista de calçados. Lá, eles entendem que as reuniões precisam ser valorizadas, pois tempo é muito dinheiro. Por exemplo, decidem, de forma consciente, que é imprescindível que há muito mais a dizer somente para os gerentes que apresentam prejuízos. Então, eles reúnem este grupo especifico para tratar os seus problemas e definir estratégias locais. E me argumentaram mais ainda:

  • Será que o conteúdo destas reuniões requer as presenças dos gerentes que estão tendo lucro?            
  • Exagerando, será que aqueles que merecem louvores, deveriam  comparecer em uma espinhosa reunião sobre os prejuízos?  
  • Não seria melhor premiar os gerentes lucrativos com a permanência em suas cidades?
  • Será que com menos pessoas não haveria mais foco e maior compromisso na solução dos problemas.
  • Longos discursos sobre o quanto a empresa está insatisfeita não resolvem absolutamente nada. Há que individualizar os grupos e tratar, tecnicamente, os problemas de cada um.

É claro que os gerentes bem sucedidos comparecem à matriz e participam igualmente de reuniões sobre os resultados, mas não com a frequência dos outros. Outra ação muito interessante, no sentido da racionalidade, também é executada naquela organização. O foco do staff, diretores, compradores e demais, é dirigido para os gerentes com prejuízos em suas filiais e, também eles, são menos frequentes naquelas lojas lucrativas. Simples e objetivo.

Será que os Recursos Humanos das empresas que planejam reuniões há tanto tempo, ainda não se deram conta de suas mesmices? 

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