terça-feira, 23 de setembro de 2014

VÁ FAZER NADA NA CONCORRÊNCIA!

Da série BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Muller

Nunca há consultorias em que o próprio consultor não aprenda também alguma coisa, ou pelo menos, algo sirva para um bom assunto futuramente. Na linda cidade de São Luís no Maranhão, quando eu atuava para uma rede de calçados e confecções, ocorreu uma dessas coisas simples que, podemos assim dizer, servem para alguma coisa.

Na área de vendas da loja matriz, no primeiro dia de consultoria, o empresário recebeu a visita de sua filha adolescente. Logo ao chegar, o pai perguntou-lhe o que fazia ali e ela respondeu, de um jeito bem humorado, que nada tinha para fazer e veio fazer nada na loja. O pai, carinhosamente, a abraçou e disse-lhe, no mesmo tom brincalhão, que fosse então visitar algum concorrente, pois certamente o nada poderia ser mais útil para a empresa da família.

Em resumo ou na moral da história, a presença de uma pessoa que vem fazer nada numa loja não contribui, obviamente, com nada nos negócios.

Tempos depois, atuando numa consultoria para uma rede paulista de Moda Masculina, aconteceu algo semelhante ao fato que fora guardado na minha memória, aquele da menina do nada... Eu estava numa filial, distante duzentos quilômetros da sede da empresa, e a gerente foi visitada pelo Supervisor da Região e mais um Comprador da empresa. Fui apresentado a eles e trocamos algumas palavras e cada um foi cuidar do seu oficio. Porém, pelo hábito de aprender os métodos, fiquei observando a atividade dos dois visitantes, se é que se poderia chamar de atividade aquilo que eu presenciei.

A princípio, eles deram a tradicional passeada de louvação pela loja. Algum tempinho depois, o comprador entregou um relatório para a gerente sobre rotações de estoques e o supervisor questionou-a se precisava de algum produto em especial e disse-lhe que ela tinha que trabalhar dobrado para atingir a meta do mês, pois a situação estava bem complicada. Ainda opinou que a vitrina estava bem promocional e que faltavam alguns precinhos na exposição, blábláblá, nhém-nhém-nhém... Depois tomaram um cafezinho no bar da esquina e rumaram, os dois alienígenas, para outra filial ainda mais distante. Em resumo, ficaram em torno de uma hora e pouco na loja ocupando o tempo da gerente com pérolas inúteis e subjetivas, em nada agregando ao resultado da loja. O que fizeram ali poderia ser muito melhor feito por um simples e-mail.

Como diria aquele lojista do Maranhão, melhor seria que fossem fazer nada em alguma loja da concorrência.

Não pense o leitor que isto foi um caso à parte. Não, absolutamente, pois isto é um vicio das grandes redes que fazem com que pessoas viajem sem critérios e sem objetivos. Simplesmente cumprem eles, supervisores, compradores e outros “ores”, uma agenda a qual seja a de mostrar-se presentes, como se suas presenças fossem uma chama divina na salvação da filial.

Nem se fala no gasto com combustível, nem no tempo perdido fazendo nada. O que se critica é o planejamento medíocre dos empresários. Não culpo os viajantes e sim imponho a responsabilidade a quem os manda saírem à estrada fazendo nada para cumprir tabela...

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