Da série BASTIDORES
DO VAREJO, de Sergio Muller.
Leio um fragmento – Jornal do Comercio – de uma saudosa entrevista
de um lojista da Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro na década de 50. Dizia o filho
do pioneiro que “[…] quando o meu pai via que as vendas iam de mal a pior,
juntava todos os “cacarecos” da loja que estavam encalhados e socava tudo na
vitrine. Meu irmão e eu então fazíamos enormes cartazes com cartolinas e
baixávamos os preços pra valer. Pendurávamos serpentinas, papel picado e
fazíamos um carnaval na vitrina…”
Alguma coisa aí faz você lembrar-se dos tempos atuais?
Pois é, isso acontecia na época
em que se amarrava cachorro com linguiça e pouca coisa mudou no varejo
atualmente. Muitos lojistas, parados no tempo, ainda continuam insistindo
nestas ladainhas… É bem provável que mais um século mude e eles continuem
fazendo carnavais na vitrina, tal qual se fazia em 1950 e poucos.
Para que se
faça justiça, reconheçamos que esta prática não se aplica mais aos grandes
varejistas do país. Aí o leitor lojista vai perguntar:
– Sim, mas porque não se aplica e eles?
Ora, é muito simples, se eles são grandes é porque, justamente,
deixaram de praticar este arcaísmo…
Aprenderam eles que o que motiva um comerciante a ter “cacarecos”
encalhados na loja é comprar mais mercadorias do que a real quantidade de
demanda. Em resumo, quando entra mais mercadoria do que sai, o resultado é uma
pilha de produtos obsoletos e desatualizados no estoque. A consequência é,
obviamente, enfiar tudo numa vitrina e colocar cartazes dizendo “grandes
ofertas para você” ou, numa mentira muito maior ainda, afirmar que “fizemos uma
grande parceria com os fornecedores e baixamos os preços para você”.
Lembro-me de uma historia bastante engraçada contada por um
fundador de uma grande rede varejista do sul do país. Por ocasião da reunião do
Conselho Diretor daquela organização, ele acompanhou a visita de alguns
acionistas ao Centro de Distribuição. Lá se depararam eles com um volume
estrondoso de pratos de porcelanas brancos. Os acionistas, perplexos, então
perguntaram a ele:
– Nossa, mas como se vende pratos brancos nesta empresa!
E ele então respondeu:
– Não, não vende tanto, quem vende bem mesmo é o representante
desta indústria de porcelanas!
Ora, quando se tem demais e se vende de menos e ainda, para
complicar, se sofre com o fluxo de caixa, é claro que você vai aplicar o golpe
da parceria com os fornecedores. A péssima noticia é que os clientes não são
mais aqueles de 1950…
Temos que admitir que, se a primeira reação de um lojista, diante
de maus resultados, é usar esta estratégia do tempo da tramela, ele ainda está
amarrando cachorros com linguiça. Então, meu nobre lojista, pare de ser pequeno
a passe a agir como se fosse grande. Compre não mais do que o necessário para o
futuro e saia imediatamente do passado.
Contatos pelo email: smuller48@hotmail.com

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