Da série
Bastidores do Varejo, de Sergio Muller
Em
alguma empresa, neste exato momento, um empresário, sem saber e sem querer,
pode estar colocando em gestação algum monstro. Como se sabe, numa empresa
existe o medíocre, o mediano e o acima da média, e é nesta última carreira que
está o óvulo que vai incubar o filhote. Mas, afinal, que monstro é este que
será parido na empresa? Para os empresários bem calejados não há nada novo na
resposta, mas sempre existirão os incautos e é para eles que escrevo
especialmente este artigo. Acompanhem.
O ego do ser humano fica
incontrolável quando inflado e, por menos que ele queira, representa um perigo
tanto para ele quanto para a empresa. É claro que para o gestor, o elogio, tal
como a crítica, faz parte do cotidiano e as doses de um ou de outro deveriam
ser criteriosamente administradas, mas, infelizmente, não o são. O certo seria
é que fossem dosados pela lógica da homeopatia, evitando os efeitos colaterais.
Na
prática das empresas, os medíocres e os medianos estão mais na linha de tiro
das criticas e sobram aos acima da média o estoque dos elogios e aí é que mora
o perigo, pois o empresário, na ânsia de incentivar resultados, deixa de ver
claramente que a tarefa bem feita, na realidade, não passa de obrigação.
Inflando o ego de alguns na expectativa da continuação dos bons desempenhos, o
empresário compromete o processo de parceria interna entre o grupo, pois o
elogiado em demasia acaba por isolar-se no seu orgulho, deixando de contribuir
com o coletivo. Quanto mais adulado mais cresce a probabilidade do sujeito,
antes uma solução, virar um transtorno, pois a arrogância e a prepotência nele
instaladas vão, fatalmente, culminar na sua saída da empresa. O filme não é
novidade para os mais experientes e melhor seria que todos em uma empresa
fossem sempre coadjuvantes, pois a cada vez que um é alçado à protagonista já
se prevê o final da história.
Quando uma criança enche um balão ao
máximo só resta que ele voe, estoure ou, mais tarde, esvazie. Nos bastidores de
uma empresa, traduzindo, significa que um profissional inflado em seu ego está
pronto para ir embora ou, permanecendo e na impossibilidade de ser mais inflado,
comece a frustrar-se internamente. O excesso da exaltação pode virar uma
catástrofe e transformar um bom profissional num grande problema. A sua vaidade
ao exigir espaços constantes começa a afetar o ambiente da casa e até mesmo aos
olhos dos medíocres e medianos, antes admiradores, o “balão inflado” passa a
ser o alvo preferido das alfinetadas dos corredores.
Atuei com um presidente de um grande grupo varejista, o qual ficava
indignado quando seus diretores carregavam demais nos elogios a uma gerência.
Dizia abertamente a estes que “vocês vão estragar o cara” e era só pagar
para ver, pois não demorava a que este ficasse contaminado pela bazófia. E as
conseqüências logo apareciam, pois se há algo nefasto na administração de uma
empresa, será aquele sujeito que é divinizado por ela. Nada contra os deuses e
sim contra a bajulação exagerada. Complementava aquele presidente, com base em
sua experiência, que devíamos ser comedidos nos elogios e, se os fizéssemos que
fossem para enaltecer o que foi feito e não a quem o fez, ou seja, elogiar a
ação e não o sujeito. No fundo, uma forma inteligente de evitar, ou postergar,
que o profissional se autodestruísse na empresa e que prejudicasse o desempenho
do todo.
É fácil perceber, por mais irônico
que pareça, que as estrelas luminosas de hoje nas empresas, serão amanhã
cadentes e problemáticas. E pior do que ter um monstro será ter dois. Quando um
empresário cria um monstro, creiam que, pela lógica e pelo hábito, outro será
criado e, em conseqüência, conforme Newton, dois corpos não
poderão ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo.
Isto significa que dois egos inflados serão responsáveis por grandes
escaramuças na busca do trono e dos holofotes. Talvez comece aí, na busca do
poder e do prestigio, a famosa criação das tribos hostis nos bastidores das
empresas.
Sem
hipocrisia, se um empresário quer mesmo conservar um gênio talentoso na
empresa, será bom que ofusque, ao máximo de tempo, o seu brilho. E para evitar
que o mesmo se sinta desvalorizado e reclame o reconhecimento, será bem
conveniente, no final de um ano de bons resultados, gratificá-lo com um ótimo
extra no bolso. Digam o que quiserem os psicólogos de plantão que defendem as
teorias do mérito, mas ainda não inventaram algo melhor do que inflar a conta
no banco. E ponto final.
Leia também o blog do mesmo autor: https://vendasvarejo.wordpress.com/

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