A essência da história é conhecida em qualquer esquina. O estilo de narrar, o cenário e o enredo é que podem ser um pouco diferentes. Acompanhe o que se segue e perceba que os participantes são os mesmos e as tragédias são aquelas anunciadas. Então, nada de novo irei contar e o que vale é simplesmente deixar o assunto em evidência.
Lá estava eu vivendo mais uma experiência nada gratificante, porém, no bom sentido de amadurecer nos conflitos, era mais uma etapa compensadora. Comigo na sala, o velho fundador daquela pequena rede de quinze lojas do segmento de confecções, à ponta da mesa, tentava mediar uma intragável e acirrada discussão. O filho, a filha e o genro, tais quais gladiadores na arena, davam um espetáculo à parte. O poder era disputado nos limites da violência e, no meio dos gritos, me chamava à atenção o semblante desanimador do velho pai. Por alguns segundos fiquei alheio e surdo àquele tumulto e, observando suas feições, imaginei a dor e decepção que se alojavam naquele homem.
A empresa estava à deriva e, cotovelos na mesa e mãos sob o queixo, o velho comandante parecia pressentir a iminência do naufrágio. Três lojas já haviam fechado. Os números não ajudavam. O ambiente não ajudava. Nada estava ajudando e o barco estava afundando…
Não existe nada pior para um pai do que ver aquilo que foi construído durante tanto tempo, ser dilapidado em tão pouco tempo. Não interessa o tamanho da empresa, nem a sua idade. A fúria incontrolável dos jovens movidos por orgulho e poder aniquilam qualquer patrimônio. Os pessimistas dizem que basta fazer sócios os irmãos para instaurar a discórdia. Exemplos não faltam e outros exemplos virão de irmãos que liquidaram prósperos negócios. É claro que em muitas empresas a sucessão acontece sem grandes transtornos, mas o objetivo aqui não é comentar sobre os bem sucedidos.
A autosuficiência dos filhos é um problema crônico para as empresas. Por querer mostrar ao mercado que sabem tanto quanto os pais, não ouvem os mais experientes. Na impulsividade, enganam-se a si próprios e, pouco a pouco, perdem o controle na gestão. É lastimável, pois acabam não percebendo que o mercado e os empregados sabem das suas fraquezas. Por serem avessos a críticas e repudiarem conselhos, acabam tornando-se pequenos ditadores na ingênua tentativa de encobrir deficiências e este engodo é praticamente impossível. Se há algo que não passa imperceptível aos sentidos dos subordinados será a falta de noção do comando. Ordens confusas, prazos sem nexos, só teoria ou só pratica e nunca ambas juntas, estas são as questões deprimentes. O pai, por necessidade, foi moldando a empresa trabalhando de pé. Os filhos, por conveniência, parecem esperar os resultados, sentados.
Quase todos circulam desde cedo por todos os cantos das empresas, atuando aqui e ali, num costumeiro ritual de aprendizado. Julgam e exaltam os pais que os filhos, ao começar nas funções mais simples, saberão valorizar e conhecer os pormenores da casa. No entanto, por ser a parte mais simples, isto não será o alicerce suficiente para fundamentar suas ascensões. O que ocorre, na grande maioria das vezes, é que a simplicidade com que a empresa foi construída irá colidir com o fausto em que foram criados. Os filhos já pegam pronto. Os filhos, desde cedo, aprendem a conviver com queijo e presunto, enquanto o pai comia pão com manteiga. O pai sobe os tijolos de segunda, os filhos querem os acabamentos de primeira. Este é o problema, este é o enigma que, depois de tecido, é quase impossível de desenrolar.
É certo que, conforme os filhos vão assumindo cargos na empresa, vão sendo avaliados, mas não da forma com que outros o são. Quando avaliam os filhos, esta avaliação vem contaminada com um misto de tolerância e cegueira. Quando se chega à irreversível fronteira de entregarem o comando a alguém de fora ou aos filhos, optam, invariavelmente, pelos segundos. Acontece, durante o contexto, um inverossímil fato. Não é que os pais fingem que os filhos sabem. Eles na verdade, conforme os tempos, comovidos pelos emotivos esforços dos filhos, desaprendem no avaliar. Como, para proteger seus rebentos, pretendem ainda ficar por perto, julgam que após dar as rédeas, vão poder, nos bastidores, ditar algumas regras do jogo. Acabam decepcionados como todos os iludidos pais, pois uma vez fora, para sempre fora. Suas idéias serão antigas e os filhos alegarão que os tempos são outros…

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