Da série BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Muller
A gestão de estoques foi, é e sempre será o grande dilema dos pequenos e médios lojistas deste país. Talvez, pelos cacoetes criados quando começam os negócios, estes lojistas inventam de tudo um pouco e, mesmo com softwares avançados, acabam se emaranhando em controles dispersos. Não conheço estatísticas, mas pelo menos nas minhas, de cada dez, oito estão sempre abarrotados de estoque, como se o dinheiro nascesse nas araras da loja. E digo mais, para espanto geral, mesmo com excesso de estoque, de cada dez, seis tem sistematicamente falta de mercadorias. É algo assim parecido com aquele sujeito que desde pequeno não assimilou a tabuada e hoje tenta fazer equações. É complicado...
Mas que raio de problema é este? Será uma epidemia que assola o varejo ou será incompetência dos varejistas? Será que há uma solução mágica para arrumar a desordem?
Eu tenho o hábito bem salutar de aconselhar aos lojistas que, antes de assistir a palestras ou fazer curso disto ou daquilo, que procurem saber como se organizam aqueles que são os bambambãs do mercado. Eles, Renner, C&A, Riachuelo, Bahia, Luiza, etc, não estão aí pra jogar dinheiro fora e utilizam fórmulas bem simples, porém rigorosas, para controlar o negócio. E o que é simples para eles, talvez seja mágico para os pequenos e médios. Então, para essa turma que tenta fazer equações sem saber dividir, entrego este artigo que, com boa vontade no uso, pode ser útil quando o estoque estiver encostando ao teto.
A espinha dorsal do negócio é ter um estoque barato que seja financiado pelos fornecedores. E quando um estoque é barato? Observe a resposta, pois ela pode ser a tal tabuada que você não aprendeu quando cabulou as aulas do velho Pitágoras. Ele é barato quando se tem rotação adequada e um preço médio igual (ou aproximado) ao preço médio das vendas. Entendeu? Não? Bom, então preste bem atenção que aqui vai um exemplo bem radical:
Supomos que você tem uma loja que vende tênis e que, feito um inventário por Faixa de Preços, você tem R$ 30.000,00 de estoque a custo balançado assim:
150 pares de tênis ao custo unitário até R$ 100,00 = R$ 10.000,00 ou 33,5% do todo
150 pares de tênis ao custo unitário até R$ 200,00 = R$ 20.000,00 ou 66,5 % do todo
Agora vamos supor que a sua venda a custo no mês que recém terminou foi de R$ 8.000,00 assim compostas em números redondos:
75 pares de tênis ao custo unitário até R$ 100,00 = R$ 5.000,00 ou 62,5% do todo
22 pares de tênis ao custo unitário até R$ 200,00 = R$ 3.000,00 ou 37,5% do todo
Neste caso, temos um estoque caro e com distribuição equivocada, pois repare como ficaram os Preços Médios:
Preço médio de custo do estoque: (R$ 30.000 / 300 pares) = R$ 100,00
Preço médio de custo das vendas: (R$ 8.000 / 97 pares) = R$ 82,00
Examine bem, pois parece pouco, mas não é. Estoques com números parecidos com esses podem implodir uma empresa sem que o que lojista se dê conta da causa. Veja que a rotação de estoques, se estes representassem um setor, até que não está das piores (R$ 30.000 divididos por R$ 8.000 = estoque para 3,7 meses), mas observe como anda a rotação dos tênis mais caros (R$ 20.000 divididos por R$ 3.000 = estoque para 6,6 meses). Mesmo considerando o radicalismo do exemplo, não se surpreenda se encontrar algo assim no seu estoque, pois, sinceramente, já vi distorções, e até aberrações, bem piores do que essas.
Os tênis mais baratos, nessas alturas precisando de urgente reposição (R$ 10.000 divididos por R$ 5.000 = estoque para 2,0 meses) representam 33,5% do estoque e 62,5% da venda. Grosso modo, o lojista, neste exemplo, tem um estoque mal locado, pois há um desequilíbrio entre o que vende e o que está estocado. Além do mais, veja que o tênis mais caro roda com lentidão e pesando violentamente no financeiro da casa. São àquelas horas em que o seu dinheiro está mal empregado, pois, se fizermos as contas mais uma vez, vamos ver que o excesso de estoque do tênis mais caro já está pago ao fornecedor e você ainda não os vendeu. Quanto aos mais baratos, aconteceu aquilo que todo lojista adora. Primeiro vende ao cliente e depois paga ao fornecedor. E esta, senhoras e senhores, deveria ser a função sonhada de todos os lojistas do mundo: Antes o cliente me compra, eu tiro a minha parte e o resto, depois, eu repasso ao fornecedor. É o que conhecemos no dicionário do varejo como “ser bancado pelo fornecedor”.
E mais, principalmente mais, se o lojista tivesse investido o dinheiro do tênis caro naqueles que são baratos, as vendas invariavelmente dariam um belíssimo salto pra cima. E é, por essas e outras, que todas as grandes corporações varejistas brasileiras consideram o domínio sobre o Preço Médio uma estratégia fundamental para comprar e para vender. Usam e abusam desta técnica que, sem dúvidas, os sustentam e os tornam imbatíveis na gestão de estoques.
Bom, visto assim rapidamente o Preço Médio, sabem os lojistas qual é o segundo passo para continuar o processo? Não? Tudo bem, sem problemas, pois no próximo artigo nós vamos falar das famosas Faixas de Preços, tão conhecidas dos compradores dos varejistas grandões.
Por enquanto, releia o artigo, pois se não assimilar o exposto atual, muito menos vai entender o exposto seguinte.

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