sábado, 2 de novembro de 2013

O OVO DE COLOMBO...

Da série Bastidores do Varejo, de Sergio Muller

Muitos lojistas têm atualmente os mesmos hábitos que tinham aqueles lojistas de mil novecentos e poucos. De diferente, no século vinte e um, a embalagem da loja e o seu interior e acrescente-se a isto a tecnologia da informação, se bem que, esta última, grande parte a usa, limitadamente, para suas operações do caixa e para saber as vendas do dia.

Assim, depois de mais de cem anos, continuam reincidindo nos velhos erros de sempre. Teimam em se concentrar nas vendas e relaxam no foco das compras e, mesmo nada mais cabendo nos cabides das araras, fazem com que acumulem volumes desnecessários no estoque. O glamour dos lançamentos e das coleções atuais se mistura, dramaticamente, no ponto de vendas, aos saldos, velharias e encalhes, transformando o layout num incompreensível circo dos horrores. Pensam eles que os clientes não reparam nestes detalhes...

A concepção dos lojistas, certamente, é a de que não podem faltar produtos, quando, por outro lado, poderiam tê-los muito melhor para a demanda, com mais lucro e menos investimento.

Desconhecem que o que sustenta o varejo é a noção simplória do que entra e do que sai. Não aprendem que se numa casa se come três quilos de arroz por semana jamais será preciso que se tenham vinte quilos na dispensa. Mesmo na nossa casa, assim como numa loja, o que nos mantém vivos financeiramente é a exata noção da receita e da despesa e o estoque além da conta é a despesa mais impensada que tem um lojista.

O excesso nas compras, assim como a equivocada distribuição destas nos setores internos do varejista, é o grande vilão na evaporação do capital de uma empresa. Some-se ao exagero a aquisição de estoque sem ter conhecimento prévio de tickets médios e de faixas de preços como parâmetros.

O incrível, e até inacreditável, é que comprar e vender é um ato tão descomplicado que qualquer calouro bem orientado poderia ter sucesso. Entretanto, mesmo com a tecnologia disponível, muitos lojistas tornam este ato ricamente complexo. O que é simples passa a ser um verdadeiro quebra cabeças.

Quando a tributação arbitrária nos arranca um pedaço da venda, quando os custos operacionais nunca pedem licença para subir, lá vai o lojista, dando uma chance para o azar, empilhar estoques que não conseguirá vender em tempo hábil. E, obviamente, vai acrescer a estes custos as perdas nas margens em razão dos descontos que, obrigatoriamente, vai dar em liquidações que poderiam ser evitadas. O caminho é sempre o mesmo e não tem volta, excessos geram descontos e descontos fazem voar os ganhos...  

O que os lojistas têm que colocar em mente é que eles deveriam, na simples realidade dos fatos, serem meros intermediários das vendas.

Qual seria o grande sonho de qualquer lojista? Não seria aquele em que antes do lojista pagar ao fornecedor, já tivesse o cliente pago o produto? E isto não é impossível, pois as grandes organizações do varejo já estão realizando este sonho há muito tempo, tendo estoques com rotações adequadas e comprando com prazos maiores que as vendas. Isto não é nenhum ovo de Colombo e está liberado ao mais simples navegador no comércio.

A grande distinção entre os pequenos e médios lojistas com os grandes players do varejo é a seguinte: Os primeiros compram, pagam e vendem. Os segundos compram, vendem e pagam. Simples, não é mesmo?

Quando o lojista é um intermediário eficaz, certamente lhe diria o fluxo de caixa, se pudesse falar:

- Obrigado, finalmente você entendeu!


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