domingo, 23 de fevereiro de 2014

O CIRCULO VICIOSO...

Da série BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Müller

Na vida profissional, assim como na pessoal, nos acostumamos com as coisas ao nosso redor como se elas fossem referencias estáticas, isto é, se elas estão assim é porque assim foram, são e serão partes do contexto de nossas vidas. O hábito cotidiano de assim enxergá-las é uma herança imposta pela rotina dos nossos modos.

Quer um exemplo? Experimente agora, imediatamente enquanto olha este artigo, cruzar os seus braços da mesma forma que você cruza, sem sentir ou saber, desde criança. Procure não abaixar os olhos para ver o jeito que você os cruza, pelo contrário, continue a ler este texto. Em seguida descruze-os e tente cruzá-los de uma forma diferente, isto é, modifique o vicio do seu hábito.

Eu posso adivinhar o que aconteceu. Você se atrapalhou completamente, pois nem se lembra como os cruzou naturalmente na primeira vez. Isto é uma mostra daquilo que fazemos pela força de praxe, pela submissão com o trivial.
Na profissão de Consultor para os negócios do varejo, levando o exemplo referido para as diferentes formas de gestão encontradas, tenho visto, além da conta, como esse fenômeno traz consequências nos resultados.

Lembrei-me disso, pois, recentemente, ao atuar para um lojista mineiro, me deparei mais uma vez com este filme. O empresário, dono de quatro boas lojas de confecções na mesma cidade, já tinha perdido o sono fazia tempos. Recorrente em bancos para tapar buracos, acumulava insônia, dívidas e prejuízos. O detalhe singular, na história, é que as lojas tinham um faturamento considerado bom e até acima da média para o setor. Mas este detalhe, para mim, por si só, não significa muita coisa, pois vender bem é apenas uma parte do negócio, coisa que aquele lojista, e tantos outros por aí, julgam ser a parte fundamental. Justamente porque aprenderam que o negócio é “vender” e que não há mal que a venda não cure...

A história nos mostra que as grandes conquistas não foram obtidas por quem tinha grandes exércitos, mas sim por quem tinha planos inteligentes, isto é, uma logística estratégica na retaguarda que conduzia ataques bem feitos no front.

Mas voltemos então à história do nosso lojista. Nos dias que eu lá estava diagnosticando a encrenca, observei que havia pequenos cartazes junto aos interruptores de luz nas salas e depósitos, os quais clamavam por economia. Outros, nos banheiros, pediam socorro justificando que a água é um bem precioso e que um dia fará falta no planeta. Nada contra estas atitudes, pois economizar não custa nada. Só que, quando uma casa está pegando fogo, de nada adianta despejar um copo de água no incêndio...

A razão nos diz que, para qualquer coisa na vida, no amor, nos relacionamentos ou nos negócios, existe o custo e a receita. A partir daí, a matemática nos dá a consequência. Por exemplo, se o amor está bom demais e se o custo deste prazer é mais alto ainda, é melhor se preparar, pois, certamente, vamos pagar um preço muito salgado quando a conta chegar.

Neste mesmo simples raciocínio, poderia o lojista mineiro imaginar a causa de sua insônia. Pensou ele que, se faltava dinheiro, tinha que aumentar as suas vendas, porque, diz a sabedoria popular que “do couro é que saem as correias”. E quando a gente quer aumentar as vendas a qualquer preço, o vicio do hábito nos manda fazer sensacionais promoções que faça o povo entrar nas nossas lojas. E eles entram, compram e fazem as lojas baterem as metas para a alegria dos gerentes e dos vendedores comissionados.

Ora, quando uma loja supera as próprias metas é justo que compremos mais e mais mercadorias, pois “não podem faltar produtos”... E assim, neste ritmo intenso, o que parecia ser a glória, na verdade, acaba se transformando numa tragédia.


Eu não preciso dar os pormenores porque, nestas alturas do texto, já vimos que o magnifico faturamento era ilusório, pois os custos, justamente daqueles produtos, superavam a outra parte, a receita. Quando saímos às compras ingenuamente, as fazemos em excesso. Quando as contas destes fornecedores se acumulam, sacrificamos as margens para fazer capital. E o círculo vicioso se forma e vai se fechando até que nos tira o sono e, mais tarde, nos tira a vida... 

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