quarta-feira, 12 de março de 2014

POTENCIALIDADES INEXPLORADAS...

Da série BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Muller
Todo novo produto pode ser surpreendente. O lojista só não pode achar que o novo trará boas surpresas somente. Por isto tem que ser cauteloso nas novidades. Somente aqueles que têm uma forte intuição e a necessária coragem, podem correr riscos de grandes investimentos. No entanto, para a maioria, o mais conveniente é, conforme o desempenho das vendas, irem gradativamente acelerando a compra de mais quantidades.

            Muitas vezes as experiências assumem destaques inesperados na participação dos negócios. O fundamental para o surgimento destes fenômenos é o controle rigoroso de suas vendas. Há que acompanhar no detalhe a vida de cada produto, coisa que as grandes redes de varejo sabem perfeitamente fazer. A área de vendas de uma loja pode se transformar num verdadeiro laboratório se o lojista for um detalhista e tiver um bom software a seu serviço. Do contrário, se acompanhar o desempenho simplesmente por grupos ou tiver muitos produtos unificados num só código, jamais descobrirá potencialidades em seu mix. Acompanhe esta historia real de um lojista:

            Estive, por muitos anos, viajando a Guangzhou, na China, sempre nas realizações de uma das maiores, talvez a maior, feira de exposições do mundo. O que se pode conceber, ou nem imaginar, em matéria de produtos, lá estará. São milhares de expositores com quase tudo que há a venda no mundo. O grupo de varejo, do qual eu era um dos colaboradores, participava frequentemente destes eventos. Eu acompanhava habitualmente o vice-presidente da empresa e alguns compradores. A tal feira, podia-se afirmar, era o tal laboratório que qualquer lojista sonhava.

Ou aconteceria um dilúvio épico no sul do país, onde se concentravam nossas lojas, ou levaríamos muitos anos convivendo com aqueles produtos pendurados nas nossas paredes.
           
Pois bem, por ocasião de uma destas incursões, enquanto garimpávamos novidades, o vice-presidente estacou literalmente frente a um dos stands de fornecedores. Passou os olhos nas mercadorias expostas e nos convocou a entrar. Tinha um brilho muito intenso nos olhos, o qual eu já conhecia. Pensei comigo mesmo que ali, naquele stand, estava para começar uma grande loucura ou uma genial decisão.

            O stand era ocupado por uma cooperativa de fabricantes chineses, operação bastante frequente por lá, e eram grandes especialistas em guarda-chuvas e sombrinhas. Fabricavam somente aquilo, porém de todos os tipos, de todas as cores e de todos os modelos. Nosso grupo era composto por várias redes de lojas e certamente haveria espaço para aqueles produtos. À época, éramos modestos vendedores destes artigos. 
     
            Quando se faz uma importação existe a exigência de uma compra mínima de cada modelo escolhido, quase sempre mais de um milhar de unidades por modelo. E o vice-presidente queria mais e mais modelos. Eu comecei, confesso, a sentir um grande receio pela possibilidade da compra atingir uma quantidade inesperada, algo assim que não tivéssemos capacidade de absorver em nossas lojas. E o meu receio, depois da conclusão da compra, se concretizava. Ou aconteceria um dilúvio épico no sul do país, onde se concentravam nossas lojas, ou levaríamos muitos anos convivendo com aqueles produtos pendurados nas nossas paredes.

            Alguns meses depois recebíamos os containers de todas as compras realizadas na China. E lá estavam sessenta mil peças de guarda-chuvas e sombrinhas que, devidamente etiquetadas, com fartas margens e um merchandising objetivo, foram distribuídas para as lojas.

            Não vou falar sobre o que aconteceu com as vendas destes produtos. Nem dizer o que foi feito do meu ceticismo a respeito. Basta simplesmente dizer que, no ano seguinte, quando regressamos a Guangzhou, nosso grupo se dirigiu direto ao stand dos chineses que vendiam guarda-chuvas e sombrinhas. E, desta vez, todos estavam com o tal brilho nos olhos. Com uma prévia seleção da primeira compra e com a adição de mais modelos, novos tecidos e mais cores, a quantidade do novo pedido ultrapassara mais de cem mil unidades.

            As nossas lojas, de uma estação para outra, se transformaram nos grandes especialistas de mercado naquele segmento. Sem qualquer dúvida, assumíamos a liderança de uma mercadoria que, por incrível que parecesse, era quase tão antiga quanto à invenção da roda, mas não explorada como devia. Uma prova incontestável que todo novo ou velho produto pode ser surpreendente, desde que nele acreditemos e desde que acompanhemos a sua evolução. 

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