domingo, 13 de abril de 2014

WHAT IS YOUR NAME?


Da série BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Muller
Penso que tudo aquilo que pode ser controlado, cobrado e fiscalizado, tem uma resposta coerente. Então se uma empresa cobra resultados numéricos  de um gerente, isto acontece porque há elementos técnicos plausíveis para esta cobrança. Observe os hábitos de avaliação de uma empresa quando uma loja está abaixo da meta e perceba que a direção das causas sempre aponta para algum fator interno. Por exemplo, ou é um setor que não está rendendo, vendedores que não estão produzindo, uma promoção que não deu certo ou, finalmente, o gerente que não tem competência. Os números, afinal, dizem isto, pois lá estão os relatórios. Nunca vi aparecer alguém e dizer que o que está faltando são clientes. Ora, se por acaso, alguém afirmasse isso, poderia até parecer ironia, mas a triste noticia, até pode parecer contraditório, é que esta seria uma grande possibilidade. Mas, afinal, se não está nos relatórios cotidianos, não é plausível...

Mas e o relacionamento do gerente com o cliente seria um objeto plausível para cobrança? Justamente por não ser, esta relação passa a ser abstrata para a empresa, isto é, algo que ela não enxerga e, às vezes, também não sente. E todos sabem que aquilo que não é cobrado não é pago. E então, este fundamental elemento para o sucesso dos negócios fica relegado ao segundo plano ou para ocasiões de extrema-unção empresarial. Os clientes constam nos bancos de dados da empresa em programas e em relatórios de deserção, mas não fazem parte das atitudes gerenciais. Como mensurar o quanto o gerente influenciaria nos resultados caso tivesse estreita aproximação com os clientes? Se não há como medir, não há como cobrar. E tudo aquilo que não se cobra em uma empresa fica entregue à própria sorte. E a sorte nunca foi generosa com os negligentes.

Impressiona-me o fato dos empresários não perceberem que o que usualmente fazem é o que todo mundo faz. Não restará amanhã alternativa ao varejo que não aquela voltada ao estudo e retenção de seus clientes. Aquele que ajustar seu foco primeiro, como alguns já o fizeram, terá vida longa. Aos outros sobrarão migalhas para sobreviver no mercado ou se transformarão em lojas oportunistas de ofertas de todo dia. E qualquer aprendiz de empresário sabe que lojas oportunistas nunca fazem festas de cinco anos.

Quando um empresário liga, de sua base, para o gerente em sua loja, a pergunta habitual, a qual faz há repetidos anos, é pedir noticias das vendas, como se já não as soubesse. Diga-se de passagem, a ligação é sempre feita quando o gerente está negativo nas vendas, pois sejam quais sejam as respostas, quase sempre subjetivas, o que o empresário quer é lembrar ao gerente que ele está atento ao negócio.   Desafio o leitor, se empresário ou gerente, a me contar se alguma vez nesta vida, o primeiro  tenha dito ao segundo:
- Quantos clientes novos você conseguiu ontem?

Jamais vi, ou soube, que algum empresário varejista tenha trocado mínimas palavras sobre clientes, mais do que alguns instantes, com seus gerentes. É uma arraigada e grande contradição, pois não há nenhum empresário que não propale priorizar a atenção aos seus consumidores. De certa forma o fazem, porém através do marketing, mas não com a intimidade necessária. Afirmo, sem receio de erro, que os empresários, em sua grande parcela, não sabem absolutamente nada sobre as pessoas que compram em suas lojas. Em síntese, sabem até a cor e o tamanho das mercadorias que vendem, mas não sabem quem as compra.

Lembro-me de um fato muito interessante, ocorrido em uma das filiais da empresa em que eu era um dos executivos. Eu sempre fui adepto fervoroso dos hábitos que ora prego neste livro. Os gerentes daquela rede sabiam das minhas convicções com relação aos clientes. Pois bem, ao visitar uma filial, estranhei, não só eu, como também os funcionários e clientes, o comportamento do gerente da loja naquele dia. Estávamos na área de vendas e eu quase não conseguia falar com ele, tamanho a agitação e o alvoroço que o mesmo exibia.

Cumprimentava e conversava com os clientes, acompanhava-os à porta, ajudava nas vendas, agradecia, enfim, fazia um belo trabalho junto à clientela. Impossível descrever a felicidade que se via nos clientes a quem o gerente dava aquela atenção. É claro, para mim era flagrante que ele tinha resolvido mostrar-me que era assim que ele atuava, quando em verdade não era. Pensei, quem sabe, se com um leve empurrãozinho ele não se habituaria...

Como eu acompanhava aquele show ao vivo, também pude perceber os comentários dos próprios funcionários da equipe. Uma vendedora perguntou a outra sobre o que estava acontecendo com o gerente naquele dia e que nunca o havia visto assim tão disposto. Quando o nosso ator deu um intervalo, e surgindo a oportunidade, disse-lhe:
- Meu gerente, parabéns pelo desempenho! Saiba que vou comunicar para toda rede, por escrito, o que eu hoje vi aqui.

E assim o fiz, mesmo sabendo que ele estava fazendo teatro. Elevei o seu feito ao máximo, mesmo sabendo não ser um hábito, porém com a segunda intenção que assim se tornasse. Algum tempo depois, o supervisor de lojas daquela região me relatava, satisfeito, que o gerente tinha gostado da sua própria interpretação e a tinha incluído nos seus costumes diários. Fiquei imensamente feliz com a notícia, pois ele, agora e de fato, poderia ser um exemplo multiplicador.

Os gerentes se, por um lado, são treinados para administrar, deveriam, por outro, ser induzidos a se relacionar.

Bem, modelos à parte, a grande verdade é que a esmagadora maioria dos gerentes faz tudo para que os clientes venham até a sua loja. Quando os clientes lá estão, surpreendentemente não dão o arremate final ao seu trabalho. Ele simplesmente continua a fazer todas aquelas triviais tarefas, como se os clientes que ali estivessem não existissem ou não tivessem vindo. É incrível, mas o gerente não toma conhecimento, nem conversa, nem se apresenta, nem aos novos e nem aos clientes tradicionais da loja.

É realmente um grande paradoxo. Faz tudo para eles virem e quando eles chegam, ele lhes vira as costas como se tivesse aversão a estes contatos. Aliás, quando vemos um gerente conversando com um cliente, muito provavelmente ele estará resolvendo problemas. Isto significa que ele está conhecendo o cliente na pior hora, o que, convenhamos, é um péssimo momento para obter intimidade.

Não tenho certeza, mas me parece que os gerentes gostam de mostrar aos clientes que estão sempre com pressa e muito ocupados. Talvez seja até uma forma bem intencionada de dizer que todo o seu trabalho é para que eles se sintam bem em um ambiente organizado. De qualquer maneira, sua ausência no relacionamento é uma grave falha, a qual é atenuada por que, pasmem, até os clientes já se conformaram que os gerentes não gostam de ser chamados pelo seu nome.

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