terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O PALESTRANTE QUE PINTAVA...

Da série Bastidores do Varejo, de Sergio Muller
Recentemente, num intervalo de uma consultoria, eu conversava com um desses gênios do marketing moderno, profissional o qual admiro demais. Falava-me ele que havia transformado um pintor de paredes em palestrante e que num workshop o pintor havia agradado a plateia com suas ideias sobre atendimento. Eu que sou adepto do ceticismo até a hora que eu possa ver resultados, fiquei na minha...

Já vi e ouvi tantas coisas do gênero que, às vezes, a gente sai só admirando a coragem de quem sobe ao parlatório. Dali para a empresa, resultados nenhum. Lembro que assisti no ano passado um palestrante, humorista aposentado da TV, que, para um auditório lotado de lojistas, abordava suas teorias inovadoras, temperadas de humor, sobre o mesmo tema, atendimento. Passado o encantamento e filtrando duas horas de assistência, eu e mais duzentos lojistas concluímos que assistir a uma comédia pelo Netflix teria sido mais barato e proveitoso. Afinal, se é para rir, é melhor isso ou ir a um circo ver os palhaços.

E o tal assunto com o marqueteiro foi se desenvolvendo na mesma esteira até que ele despertou a possibilidade de me transformar, tal qual o pintor de paredes, num palestrante. Ora, era uma possibilidade e até alimentei esperanças...

Mas o que veio a seguir sepultava precocemente a minha carreira. Dizia-me ele que eu teria que criar novas teorias sobre gestão, estratégias, planejamentos, etc, etc e etc, pois, do contrário, estaria eu fadado ao fracasso. Minha empreitada nem bem começara e minha empresa já havia quebrado. Conheço bastante sobre mortalidade de empresas, mas aquela causa tinha sido fulminante.

Mas então, em resumo, as pessoas querem que se diga a elas aquilo que o meu avô já sabia, mas de uma forma diferente, como se aquilo fosse a ultima novidade americana em terras tupiniquins?

Fiquei quase traumatizado ao ver que os meus trinta e poucos anos de varejo, aliás, sempre  conduzidos com  lucros acima da média, teriam que ganhar uma nova roupagem para agradar aos que anseiam por inovações.

Consultores, costumeiramente, atuam para quem está com a água chegando ao nariz. Eu me lembro de um lojista nessa situação incomoda, para o qual eu prestava consultoria, que era fervoroso leitor de gurus americanos e suas novas teorias sobre quaisquer coisas. Quando troquei informações a respeito de seu negócio, não sabia ele nem quantos clientes eram ativos em sua empresa. Não sabia ele nem quais as margens finais de suas linhas de produtos, apesar de ter um bom software à disposição.

Acreditem, casos como o do tal lojista é uma pandemia por aí nos negócios. Os caras leem Michel Porter, Tom Peters e Eric Ries com suas excentricidades, mas não sabem as simplicidades de suas próprias operações...

Eu me atrevo a dizer que as empresas não estão precisando de novas teorias e sim de profissionais que ponham em prática as antigas...

E voltando a minha pretensa carreira de palestrante, quer dizer em miúdos que se eu quisesse ganhar dinheiro com ela, eu inventaria soluções heterodoxas tornando os problemas complexos?
Não, eu agradeço, mas não sei mentir...

Antes que eu fuja do contexto, creio, convictamente, que se o empresário quiser resolver os seus problemas ele que, como se diz na gíria, “caia dentro” de sua empresa, pois a solução está entre as linhas de seus números. Assim como num eletrocardiograma, ele que examine as distorções de seu desempenho, pois, assim como no século passado, a encrenca está entre a Receita, no meio da Despesa e culminando no seu Lucro.

Se eu tiver que dar palestras, será do meu jeito original, pois não consigo interpretar papeis diferentes.E para finalizar, arrisco uma questão para aquele notável publicitário: Será que as velhas teorias não são por si só, a última inovação do momento?

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