Da série
BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Muller
Há um
comerciante libanês em Londrina-PR, conhecido por seus excelentes provérbios.
Um deles, inesquecível, diz que “alardeie o prejuízo, mesmo se estiver lucrando”.
É algo assim como chorar por fora e sorrir por dentro...
De uma coisa eu tenho certeza, por
tudo que sei, por tudo que vejo e escuto. Com exceção da sua família, o
restante quer mais é que o seu sono perca a harmonia. É claro que felizes são
aqueles que têm sua roda de amigos e histórias para contar, mas também até aí é
bom conter exageros. Nada melhor nesta vida do que ter uma roda de amigos,
entre um cafezinho e outro, para falarmos da vida, mas nada custa se tivermos
cautela na exaltação às nossas conquistas. Nunca se esqueça de que o amigo que
está no seu grupo pode ser o amigo do seu inimigo. Além do mais, é sempre
prudente e sensato não alardear as vitórias com pompas porque será complicado
explicar as derrotas depois.
No
fundo, bem lá no fundo, de qualquer um de nós, sempre existirá um pequeno
demônio que mexerá com o nosso ego quando soubermos do sucesso do outro. De um
jeito meio que hipócrita, sempre mostramos felicidade quando ouvimos das
riquezas dos nossos amigos. E por outro lado, aquele que está nos contando tem
a intenção principal, além de gabar-se, de nos remeter para baixo. Então só nos
resta, como ouvintes, louvarmos as glórias do outro. Mais tarde, pensamos,
arranjaremos uma forma de lhe provocar também a inveja, mas nunca esqueçamos
que a glória, assim como a liderança, é efêmera.
Portanto, exalte e glorifique o outro
ao exagero, mas não se descuide da retaguarda enquanto estiver sendo
glorificado. Aproveite, mas mantenha o equilíbrio, pois o encantamento é o
grande inimigo dos empresários vaidosos. A sua ostentação causa certa inveja
nos concorrentes, mas, ao mesmo tempo, os faz trabalhar mais para ter o que
você tem. Por outro lado, se você tem sucesso e conserva cautela em mostrar,
não os tira da letargia e nem lhes provoca o desejo de alterar os seus ritmos.
É muito melhor não acordar os concorrentes, pois eles vão copiar o que você faz.
Não se
iluda e nem deixe o seu ego exultante. Não se envaideça com elogios e tenha
sempre uma sobrancelha erguida e um pé atrás com lisonjas. Se pergunte o que
eles estão querendo dizer realmente, pois o que o concorrente da esquina quer,
na verdade, é ficar com o seu ponto. Não acredite naqueles que dizem que todo
concorrente é bem-vindo e que isto enriquece o mercado. Cada um dos seus
concorrentes quer ser o primeiro a fechar a tampa do seu caixão. Sobreviva,
portanto, e com as lágrimas de um crocodilo, tampe antes você o caixão dele e
cole a boca para não sorrir no velório.
E, finalizando, mais um lembrete para
guardar na memória: Quando as vendas estiverem ótimas, diga aos concorrentes
que estão regulares. Isto os deixará satisfeitos. Quando estiverem péssimas,
diga que estão regulares. Isto os deixará desestabilizados. A mentira saudável
é uma arte da sobrevivência.
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