Da série Bastidores do Varejo, de Sergio Muller
Era uma atrativa loja de departamentos numa área de mil metros. Uma
empresa familiar e conservadora que lá estava há muitos anos e que vinha
sofrendo, gradativamente, o desgaste causado pelo constante ingresso no mercado
de concorrentes menores, porém muito mais dinâmicos.
O seu layout era o mesmo
de duas décadas passadas, os seus balcões envernizados residiam no mesmo ponto
sem arredar o pé nem pra lavar embaixo. Mesmo assim, ainda conservava uma boa
parte de seus clientes tradicionais. Talvez estivesse certo o velho dono quando
me dizia: “se eu mudar as coisas eu perco os meus clientes, pois eles sabem
direitinho onde fica tudo o que eles querem”.
Quando a família me chamou para este trabalho, me pediram somente uma
coisa. Que eu não sugerisse modernizar a loja. Eles a queriam assim como ela
estava, tal e qual o seu fundador a concebeu. Acima de tudo queriam o que todo
mundo quer, lucro. Tinham eles um software “meia boca” que não queriam se
desfazer, mas que era o suficiente para as informações que eu queria.
Quando diagnostiquei os problemas da loja, inesperadamente, percebi
que a receita cobria perfeitamente os custos de sua operação e ainda lhes
sobrava um bom lucro. A pergunta, então era, parodiando o Fantástico, “cadê o
dinheiro que estava aqui?”. Amargavam eles empréstimos bancários para sustentar
o negócio, coisa essa que sabemos, é um péssimo negócio. O que lhes sobrava saía
pela porta da loja e entrava pela porta do banco. E essa história de portas
sempre acaba com a primeira porta fechada, a qual, se ainda não estava, a
hipotecada estava.
Ora, uma loja tem dois grandes custos a serem controlados com mão de
ferro. Se os seus próprios custos estavam controlados, o custo que restava
descontrolado estava. Via de regra, o maldito custo dos fornecedores. A família
alegou, e com razão, que precisavam continuar comprando, pois caso contrário, a
coisa ia para o país da Cucuia.
Quando, principalmente, se tem uma loja de departamentos, a primeira
coisa, a mais fundamental de todas, é saber distinguir os tipos de estoques,
pois eles não são e nunca serão iguais, aliás, nem mesmo para os pequenos
lojistas. Por exemplo, uma bermuda de Tactel vende só no verão e uma calça de Jeans
vende o ano inteiro, independente da estação. Ora, então algumas coisas são sazonais
e outras são permanentes, não é mesmo? E como tal, coisas diferentes devem ter
métodos diferentes. E qual desses dois produtos tem mais riscos de trazer
prejuízos para o lojista? Evidentemente será a bermuda, que se sobrar, ficará
seis meses paga e encaixotada. A calça jeans lá estará no cabide o ano inteiro
e basta comprá-la mensalmente pela proporção que vender que prejuízo não
haverá.
É bom que eu explique tecnicamente estas diferenças, pois o "furo da bala" do nosso cliente residia neste endereço.
O QUE É ESTOQUE PERMANENTE (BÁSICO)
São aquelas mercadorias que tem demanda contínua por muito tempo sem
serem afetadas pelo clima ou por alterações de design. É um estoque
extremamente simples no controle, já que as compras destas mercadorias podem
ser programadas mensalmente com reposições normais. O lojista pode atuar,
dependendo da entrega de seus fornecedores, com cobertura de, no máximo dois
meses de estoque. Sua importância no mix de uma loja é fundamental e a
estratégia vital é aumentar gradativamente a sua participação nas vendas. As
vantagens do Estoque Permanente:
·
Margens estáveis e lucrativas
·
Riscos mínimos no investimento
·
Podem ser programadas por meses adiante pela
média de vendas
·
Riscos mínimos de sobras
·
Possibilidade de ter marca própria
·
Podem operar com baixo estoque
·
Giros de estoque com fácil controle
·
Lucratividade o ano inteiro
·
Raramente entram em liquidações
·
Possibilidade de expansão no mix
O QUE É ESTOQUE
SAZONAL
O estoque sazonal é aquele que atenderá, basicamente, às duas coleções
do ano (Inverno e Verão), assim como é composto por produtos de modismos e
eventos, isto é, são aqueles produtos de vida curta no ponto de venda. Ao mesmo
tempo em que renovam a loja e atraem consumidores atualizados, trazem o grande
risco de encalhes ao estoque. A habilidade do comprador determinará se o sazonal
traz lucro ou prejuízo a uma empresa. A grande e melhor estratégia do sazonal é
entrar antes que comece e sair antes que acabe. Nos indicadores, começa com
giros máximos e termina com giros mínimos. Existem ainda outras perdas
indiretas com as sobras destes estoques:
·
Depreciação de embalagens e produto
·
Reexposição inoportuna no layout do próximo ano
·
Produtos fora de tendência próximo ano
·
Depreciação imagem da loja
·
Quebra de margens da próxima coleção
·
Capital investido inerte nos depósitos
Resumindo, estas simplicidades foram adotadas no planejamento de
compras daquela antiga loja, a qual, aliás, continua sendo antiga e
tradicional, porém dois anos depois, nada mais deve para ninguém. Se vocês querem
saber, os concorrentes continuam chegando e lá está ela, firme e despreocupada,
com seus balcões envernizados...
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