
Da série Bastidores do Varejo, de
Sérgio Muller
Muito antes de Denis Papin, em 1679, ter inventado a panela de pressão,
a pressão já existia. Os motivos que levaram o inventor a criar a panela, eram
os mesmos, tempos depois, daqueles que revolucionaram as indústrias e outros
negócios. Todos queriam resultados mais rápidos, econômicos e eficazes. Nada
melhor do que a pressão, indiscutivelmente...
E eles fizeram escola. Convenhamos que hoje, nada mais que não tenha
pressão, funciona. Em qualquer negócio, em qualquer gestão, em qualquer
operação.
Certa ocasião, um gerente de departamento de uma grande empresa
confessava-me que não suportava mais tanta pressão. Afirmava, nas suas
confidências, que não conseguia mais ter noites de sonos tranquilas. Acordava
na madrugada e sentava à beira da cama, num desespero completo. Temia, sob
todos os aspectos, o temperamento do seu superior. Muitas vezes, aguardava um
agradinho do chefe, mas recebia um direto no queixo. Em outras, o inverso. A
objetividade do chefe era direta e rápida, encurtando diálogos e decidindo
questões problemáticas em frações de minutos. O cara não conseguia compreender
os motivos daquela conduta e ele era atormentado pela intercalação sistemática
das reações que vinham de cima. Tinha plena convicção que seu chefe era o
Machiavel encarnado, mas reconhecia, entretanto, que o sujeito pensava alguns
anos à frente. Talvez, por isso, não lhe sobrasse tempo para lero-leros tão
comuns nos corredores de empresas.
Ele admitia que o ambiente, quando o big boss viajava, virava uma festa.
Eram momentos de relaxamento total. Diretores, gerentes e funcionários
circulavam faceiros nos bastidores. Decididamente a empresa ou, nesse caso, a
casinha, ficava cor de rosa e feliz.
O problema é que, na selva que viraram os negócios, as casinhas felizes estão
fadadas ao fracasso. Ou será que aquele que fica na lanterna das vendas merece
sossego? Ou será que aquele que fica em primeiro nas vendas merece um relax?
Não, ninguém merece, porque é preciso que haja pressão e mais pressão, pois,
por mais incrível que pareça, tanto as glórias como as vitórias, conduzem a
acomodação e ao desestímulo.
Os empresários experientes sabem disto melhor do que ninguém. Não é por
acaso que, mesmo diante de períodos lucrativos, não sossegam e ficam cada vez
mais obstinados. Sabem perfeitamente que a euforia deve ser celebrada com
prudência porque o sucesso é um veneno que enfraquece seus homens.
A pressão preserva o lucro e o lucro preserva as pessoas. Então, a
pressão é fruto da sobrevivência e só ele, o empresário, tem consciência de sua
responsabilidade social com aquelas pessoas. Se o julgam como demônio, ficam
tensos, porém vivos. Se o julgam como Madre Teresa, se atiram nas cordas e são
mortos.
Já reparou como os chefes bonzinhos perdoam? Não é à toa que são
adorados. Aprendemos, desde a infância, a gostar de professores tolerantes,
pois esses não nos exigiam esforços. Por outro lado, com carrancudos mestres, é
que, através da pressão, mais tínhamos que superar obstáculos.
É claro, existem muitas correntes que entendem que empresas que ganham
títulos de excelência na gestão de pessoas têm funcionários que vivem mostrando
sorrisos. Até pode ser, mas também não se espere que a felicidade esteja
presente o tempo todo, porque quem quer ser excelente em alguma coisa, em
primeiro lugar tem que ter excelência no lucro. E lucro, decididamente, não se
consegue sem sacrifícios.
Pode parecer contraditório, mas a empresa que quer ser mais humana, não
deve ser permissiva aos erros e nem deve exagerar na contemplação aos acertos.
Se quisermos ter profissionais equilibrados, a crítica no objetivo de não
desviá-lo do rumo, deve ser sistemática. E os elogios, com a mesma finalidade
das críticas, não devem ser permanentes, pois aquele que é elogiado em demasia
tende a ser excessivo na sua confiança. E excessos de confiança tornam frágeis
os homens e afrouxam seus interesses.
As empresas bem sucedidas são aquelas que sabem mediar concessões.
Dar muito ou dar pouco são procedimentos equivocados, levando ao
conflito e a insatisfação na gestão do pessoal. As empresas que querem
perpetuar-se devem conceder aquilo que anseiam seus funcionários, de uma forma
que não os deixem com fome e nem os deixem saciados. Por isso, o correto,
obstante estranho soar, é só dar o suficiente. Quando os empresários são
comedidos estarão, em todos os aspectos, conservando sua gente e os mantendo no
emprego. A pressão de um lado e as lentas concessões de outro, servirão para
que todos se conscientizem que generosidade demais pode gerar empregos de
menos. Em razão disto, há que celebrar nas empresas os benefícios que são
recebidos, pois servirão eles para compensar o ritmo intermitente, e por vezes
invisível, da pressão necessária.
Todos os subordinados, quando as concessões acontecem, se satisfazem com
o parcelamento das melhorias, as quais, mesmo que eles não se apercebam, os
mantêm fiéis à doutrina da casa.
Já reparou que, principalmente nas grandes empresas, em intervalos
de tempo, aparecem alguns benefícios?
Eu nunca me esqueço de um empresário que, certa vez, me dizia: “Na
maioria das vezes, podemos melhorar em muito a vida de nosso pessoal, mas a
prudência nos orienta que não devemos ser demais generosos, pois esta
precipitação pode gerar mais adiante, a expectativa de repetirmos o gesto. E,
em verdade, lá adiante, não sabemos se poderemos.” A iminência desta reação faz
com que os benefícios concedidos sejam dados em prestações homeopáticas. O
dueto remuneração e beneficio é o principal conteúdo das pressões que surgem de
baixo. É conveniente, portanto, que o empresário conceda o que reivindicam, mas
aos poucos e em períodos intercalados. Ou, como bem se conhece nas rodas das
associações patronais, “o bem tem que ser feito a prazo e o mal é melhor que se
faça à vista...”
Por mais que estes fatos possam parecer desumanos, acreditem ou não, é
uma alternativa eficaz para manter funcionários estáveis. Paradoxalmente, o
método preserva-os no quadro, pois na expectativa de novas melhorias adiante,
permanecem empregados. Nos atuais dias, isto faz grande diferença.
Sinceramente, nunca conheci nenhum empresário bem sucedido que fosse
sempre bonzinho. E isto está longe de ser uma simples coincidência...
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