Da série Bastidores do
Varejo, de Sergio Muller
Volta e meia publico
alguma coisa com relação ao escasso tempo que um gerente de loja dedica aos
seus clientes e o farto tempo que ele dedica às suas mercadorias...
Uma vez, numa cidade
nordestina, eu atuava junto a uma filial de uma rede de calçados. Durante um
largo período de tempo, estava o gerente ocupado com tarefas cotidianas da
loja, conferindo, arrumando, acompanhando vitrines e outras coisas do gênero.
Porém, em determinado momento, no ponto de vendas, eu precisava mostrar alguns
dados de vendas ao gerente. Como eram muitos papéis, eu o convidei a sentar ao
meu lado em um dos bancos que serviam de provas de calçados para os clientes. Desculpou-se
ele e disse-me que não poderia sentar porque era norma da casa e que veria, de
pé, os papéis, pois caso contrário seria flagrado pelas câmeras do circuito
interno da empresa.
Ora, aquela filial estava
a mais de duzentos quilômetros da matriz. Concordo que cada empresa tem suas
regras, mas, no outro lado da moeda, se havia alguém com tempo sobrando na sede
da empresa para vigiar os gerentes, deveria a empresa orientar o tal desocupado
a observar se o gerente, no mínimo, conversava com os clientes.
Perceba que, como
clientes, nós já nos acostumamos a passar despercebidos. Perceba que, como
gerentes, nós já nos acostumamos a não perceber os clientes. Então, o ilógico,
o diferente, seria que ambos se conhecessem e criassem intimidade. E intimidade
sempre foi o principio ativo da parceria. O engraçado, e até intolerante, é que
os empresários e os gerentes leem livros e mais livros deste tema que os
autores acham uma enorme complexidade. Fórmulas e mais fórmulas, cases e mais
cases são lidos com apetite, como se na prática, na simplicidade do contexto,
isto fosse necessário. Bastaria, por parte dos empresários, terem uma atitude
radical quanto ao comportamento gerencial e toda a literatura do gênero iria
para a gaveta. No entanto, parece ser mais cômodo ler complexas teorias do que
se importar com os seus simples e próprios problemas.
Somos todos, independente
de atuarmos no varejo, consumidores. E, portanto, fazemos muitas vezes o papel
real de clientes. Quem de nós não sente prazer de, ao comprar em alguma loja,
sermos cumprimentados pelo gerente. E se ele ainda se apresentar e conversar
conosco, então o prazer se transforma em status. Quem de nós não gosta de ser
valorizado?
Mas infelizmente, e quase
sempre, não ganhamos, como clientes, este valor. Quantas oportunidades perdem
os gerentes de agregar valor para a sua empresa? Bastaria tão pouco...
O que é mais
impressionante neste enredo é que pouco se fala neste assunto. É uma coisa que
todos sabemos que é fato, mas sempre desconversamos sobre a existência. Tenho
um grande receio de afirmar que somos, em verdade, grandes incompetentes para
tratar o assunto. Afinal, o ser humano, desde criança, teme aquilo que não
sabe...
Contraditoriamente,
naquele mesmo dia, uma funcionária estava etiquetando malas diretas para
clientes de crediário que não compravam há mais de um ano. O irônico é que no
dito material se destacava a frase “Volte, estamos com saudades de você”!

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