sábado, 7 de outubro de 2017

O PRIMEIRO TIJOLO NINGUÉM ESQUECE...

Da série Bastidores do Varejo, de Sérgio Muller.

Um velho fundador de uma grande rede de varejo do sul do país deixou-me profundas marcas na minha vida profissional. Ele, já com uma idade bastante avançada, permanecia ainda como o grande presidente da empresa, enquanto um dos seus filhos, na vice-presidência, tocava brilhantemente a empresa.

Tinha sempre um semblante generoso à disposição do mais simples funcionário e era admirado por todos.  Já passam tantos anos, mas o tempo não apagou a lembrança daquele sorriso aberto e sincero de quando eu adentrava sua sala. A velocidade que se exigia numa empresa daquele porte, de certa forma, não o deixava ser mais atuante como outrora. Então ele pouco participava das atividades do dia a dia, o que não significava que não soubesse como andava o negócio.  Assim, raramente alguém da empresa, em busca de decisões, frequentava a sua sala na sede da organização. Ele chegava e saía no horário convencional de todos e era extremamente pontual.

Eu, durante um período que atuava na gerência regional de dois estados do sul, a cada vez que a ocasião me permitia, jamais deixava de ir visitá-lo. Sempre procurei demonstrar o quanto eu o admirava. E eu sentia que ele retribuía o mesmo por mim. Então, assim nos entendíamos. Nós conversávamos muito superficialmente sobre as vendas, mas muito profundamente sobre a vida. Ele sempre se interessou sinceramente sobre a minha e a de minha família. Jamais deixou de perguntar se eu precisava de alguma coisa, como se aquilo fosse uma forma de me dizer “eu estou aqui”. 

Em pequenas frases ele me trazia grandes ensinamentos, os quais ainda uso e me são proveitosos. Costumava dizer, como uma marca registrada, que “não tinha certeza de nada” e, até hoje, ainda procuro entender a profundidade contida nesta expressão. Acima de tudo, me ajudou a ser simples e a dizer as verdades. Mostrou-me o valor da generosidade sem pedir nada em troca, coisa que eu não tinha aprendido muito bem ainda. Era uma virtude atípica, pois nas empresas não mais se aprendem essas coisas. A grande e moderna empresa que se preza não tem alma nem coração, pois lhe basta o cérebro para dirigir o todo.

Mais tarde, fui promovido a diretor da empresa e passei a assumir outras responsabilidades na condução de uma das redes de lojas que possuía o grupo. Ficamos muito mais próximos e continuei com ele a ter as mesmas conversas de sempre. Ríamos das situações mais banais e a vida foi passando e a empresa foi crescendo. No entanto, chegou uma época que aquele homem já idoso, começou a intercalar momentos de alegria e de abatimento. Então, nas vezes que ele lá estava, eu escutava as suas histórias imaginando, irreversivelmente, que em breve eu não mais as teria. Quase não mais se entendiam suas palavras, mas a condição de parceiro me fazia forçar o ouvido para entendê-lo. Parecia que ele sabia que sua missão estava em seus limites finais.

Algum tempo depois, quando eu já saíra da empresa e estava em voo solitário, nos encontramos pela última vez. Ele lá estava em paz e inerte. Acompanhei o seu cortejo até o último instante da cerimônia.
Hoje, quando estou atuando em alguma empresa, e ao ver alguns dos homens que a fundaram, tenho uma profunda veneração por eles, talvez mais do que seus próprios herdeiros tenham. No cotidiano, na correria das grandes decisões nas quais os pioneiros quase nem mais participam, escapam eles das luzes dos holofotes. Tenho sempre a impressão que a tecnologia e a complexidade em que viraram os negócios do varejo, lhes trazem um desconforto do tipo “porque as coisas não são mais como antigamente”? E pensar que sem eles, sem suas visões desbravadoras, não teria subido o primeiro tijolo. E pensar, com certa inocência, que tudo que hoje existe num software cabia num pequeno caderno...


A imagem que ilustra o artigo refere-se ao primeiro prédio em 1950 da então Comercial Grazziotin Ltda. 
O artigo refere-se ao lendário presidente do Grupo Grazziotin, Sr. Tranquilo Grazziotin.

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