Um velho fundador de uma
grande rede de varejo do sul do país deixou-me profundas marcas na minha vida
profissional. Ele, já com uma idade bastante avançada, permanecia ainda como o grande presidente da empresa, enquanto um dos seus filhos, na vice-presidência, tocava
brilhantemente a empresa.
Tinha sempre um semblante
generoso à disposição do mais simples funcionário e era admirado por
todos. Já passam tantos anos, mas o
tempo não apagou a lembrança daquele sorriso aberto e sincero de quando eu
adentrava sua sala. A velocidade que se exigia numa empresa daquele porte, de
certa forma, não o deixava ser mais atuante como outrora. Então ele pouco
participava das atividades do dia a dia, o que não significava que não soubesse
como andava o negócio. Assim, raramente
alguém da empresa, em busca de decisões, frequentava a sua sala na sede da organização.
Ele chegava e saía no horário convencional de todos e era extremamente pontual.
Eu, durante um período que
atuava na gerência regional de dois estados do sul, a cada vez que a ocasião me
permitia, jamais deixava de ir visitá-lo. Sempre procurei demonstrar o quanto
eu o admirava. E eu sentia que ele retribuía o mesmo por mim. Então, assim nos
entendíamos. Nós conversávamos muito superficialmente sobre as vendas, mas
muito profundamente sobre a vida. Ele sempre se interessou sinceramente sobre a
minha e a de minha família. Jamais deixou de perguntar se eu precisava de
alguma coisa, como se aquilo fosse uma forma de me dizer “eu estou aqui”.
Em pequenas frases ele me
trazia grandes ensinamentos, os quais ainda uso e me são proveitosos. Costumava
dizer, como uma marca registrada, que “não tinha certeza de nada” e, até hoje,
ainda procuro entender a profundidade contida nesta expressão. Acima de tudo,
me ajudou a ser simples e a dizer as verdades. Mostrou-me o valor da
generosidade sem pedir nada em troca, coisa que eu não tinha aprendido muito
bem ainda. Era uma virtude atípica, pois nas empresas não mais se aprendem
essas coisas. A grande e moderna empresa que se preza não tem alma nem coração,
pois lhe basta o cérebro para dirigir o todo.
Mais tarde, fui promovido a
diretor da empresa e passei a assumir outras responsabilidades na condução de
uma das redes de lojas que possuía o grupo. Ficamos muito mais próximos e
continuei com ele a ter as mesmas conversas de sempre. Ríamos das situações
mais banais e a vida foi passando e a empresa foi crescendo. No entanto, chegou
uma época que aquele homem já idoso, começou a intercalar momentos de alegria e
de abatimento. Então, nas vezes que ele lá estava, eu escutava as suas
histórias imaginando, irreversivelmente, que em breve eu não mais as teria.
Quase não mais se entendiam suas palavras, mas a condição de parceiro me fazia
forçar o ouvido para entendê-lo. Parecia que ele sabia que sua missão estava em
seus limites finais.
Algum tempo depois, quando
eu já saíra da empresa e estava em voo solitário, nos encontramos pela última
vez. Ele lá estava em paz e inerte. Acompanhei o seu cortejo até o último
instante da cerimônia.
Hoje,
quando estou atuando em alguma empresa, e ao ver alguns dos homens que a
fundaram, tenho uma profunda veneração por eles, talvez mais do que seus
próprios herdeiros tenham. No cotidiano, na correria das grandes decisões nas
quais os pioneiros quase nem mais participam, escapam eles das luzes dos
holofotes. Tenho sempre a impressão que a tecnologia e a complexidade em que
viraram os negócios do varejo, lhes trazem um desconforto do tipo “porque as
coisas não são mais como antigamente”? E pensar que sem eles, sem suas visões
desbravadoras, não teria subido o primeiro tijolo. E pensar, com certa
inocência, que tudo que hoje existe num software cabia num pequeno caderno...
A imagem que ilustra o artigo refere-se ao primeiro prédio em 1950 da então Comercial Grazziotin Ltda.
O artigo refere-se ao lendário presidente do Grupo Grazziotin, Sr. Tranquilo Grazziotin.
A imagem que ilustra o artigo refere-se ao primeiro prédio em 1950 da então Comercial Grazziotin Ltda.
O artigo refere-se ao lendário presidente do Grupo Grazziotin, Sr. Tranquilo Grazziotin.

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