domingo, 31 de janeiro de 2016

AMARRANDO CACHORROS COM LINGUIÇA?

Da série BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Muller.
Leio um fragmento – Jornal do Comercio – de uma saudosa entrevista de um lojista da Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro na década de 50. Dizia o filho do pioneiro que “[…] quando o meu pai via que as vendas iam de mal a pior, juntava todos os “cacarecos” da loja que estavam encalhados e socava tudo na vitrine. Meu irmão e eu então fazíamos enormes cartazes com cartolinas e baixávamos os preços pra valer. Pendurávamos serpentinas, papel picado e fazíamos um carnaval na vitrina…”
Alguma coisa aí faz você lembrar-se dos tempos atuais?
Pois é, isso acontecia na época em que se amarrava cachorro com linguiça e pouca coisa mudou no varejo atualmente. Muitos lojistas, parados no tempo, ainda continuam insistindo nestas ladainhas… É bem provável que mais um século mude e eles continuem fazendo carnavais na vitrina, tal qual se fazia em 1950 e poucos.
 Para que se faça justiça, reconheçamos que esta prática não se aplica mais aos grandes varejistas do país. Aí o leitor lojista vai perguntar:
 – Sim, mas porque não se aplica e eles?
Ora, é muito simples, se eles são grandes é porque, justamente, deixaram de praticar este arcaísmo…
Aprenderam eles que o que motiva um comerciante a ter “cacarecos” encalhados na loja é comprar mais mercadorias do que a real quantidade de demanda. Em resumo, quando entra mais mercadoria do que sai, o resultado é uma pilha de produtos obsoletos e desatualizados no estoque. A consequência é, obviamente, enfiar tudo numa vitrina e colocar cartazes dizendo “grandes ofertas para você” ou, numa mentira muito maior ainda, afirmar que “fizemos uma grande parceria com os fornecedores e baixamos os preços para você”.
Lembro-me de uma historia bastante engraçada contada por um fundador de uma grande rede varejista do sul do país. Por ocasião da reunião do Conselho Diretor daquela organização, ele acompanhou a visita de alguns acionistas ao Centro de Distribuição. Lá se depararam eles  com um volume estrondoso de pratos de porcelanas brancos. Os acionistas, perplexos, então perguntaram a ele:
– Nossa, mas como se vende pratos brancos nesta empresa!
E ele então respondeu:
– Não, não vende tanto, quem vende bem mesmo é o representante desta indústria de porcelanas!
Ora, quando se tem demais e se vende de menos e ainda, para complicar, se sofre com o fluxo de caixa, é claro que você vai aplicar o golpe da parceria com os fornecedores. A péssima noticia é que os clientes não são mais aqueles de 1950…
Temos que admitir que, se a primeira reação de um lojista, diante de maus resultados, é usar esta estratégia do tempo da tramela, ele ainda está amarrando cachorros com linguiça. Então, meu nobre lojista, pare de ser pequeno a passe a agir como se fosse grande. Compre não mais do que o necessário para o futuro e saia imediatamente do passado.

Contatos pelo email: smuller48@hotmail.com


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

NÃO CRIE MONSTROS EM SUA EMPRESA!

Da série Bastidores do Varejo, de Sergio Muller
Em alguma empresa, neste exato momento, um empresário, sem saber e sem querer, pode estar colocando em gestação algum monstro. Como se sabe, numa empresa existe o medíocre, o mediano e o acima da média, e é nesta última carreira que está o óvulo que vai incubar o filhote. Mas, afinal, que monstro é este que será parido na empresa? Para os empresários bem calejados não há nada novo na resposta, mas sempre existirão os incautos e é para eles que escrevo especialmente este artigo. Acompanhem.
O ego do ser humano fica incontrolável quando inflado e, por menos que ele queira, representa um perigo tanto para ele quanto para a empresa. É claro que para o gestor, o elogio, tal como a crítica, faz parte do cotidiano e as doses de um ou de outro deveriam ser criteriosamente administradas, mas, infelizmente, não o são. O certo seria é que fossem dosados pela lógica da homeopatia, evitando os efeitos colaterais.
Na prática das empresas, os medíocres e os medianos estão mais na linha de tiro das criticas e sobram aos acima da média o estoque dos elogios e aí é que mora o perigo, pois o empresário, na ânsia de incentivar resultados, deixa de ver claramente que a tarefa bem feita, na realidade, não passa de obrigação. Inflando o ego de alguns na expectativa da continuação dos bons desempenhos, o empresário compromete o processo de parceria interna entre o grupo, pois o elogiado em demasia acaba por isolar-se no seu orgulho, deixando de contribuir com o coletivo. Quanto mais adulado mais cresce a probabilidade do sujeito, antes uma solução, virar um transtorno, pois a arrogância e a prepotência nele instaladas vão, fatalmente, culminar na sua saída da empresa. O filme não é novidade para os mais experientes e melhor seria que todos em uma empresa fossem sempre coadjuvantes, pois a cada vez que um é alçado à protagonista já se prevê o final da história. 
Quando uma criança enche um balão ao máximo só resta que ele voe, estoure ou, mais tarde, esvazie. Nos bastidores de uma empresa, traduzindo, significa que um profissional inflado em seu ego está pronto para ir embora ou, permanecendo e na impossibilidade de ser mais inflado, comece a frustrar-se internamente. O excesso da exaltação pode virar uma catástrofe e transformar um bom profissional num grande problema. A sua vaidade ao exigir espaços constantes começa a afetar o ambiente da casa e até mesmo aos olhos dos medíocres e medianos, antes admiradores, o “balão inflado” passa a ser o alvo preferido das alfinetadas dos corredores.
Atuei com um presidente de um grande grupo varejista, o qual ficava indignado quando seus diretores carregavam demais nos elogios a uma gerência. Dizia abertamente a estes que “vocês vão estragar o cara” e era só pagar para ver, pois não demorava a que este ficasse contaminado pela bazófia. E as conseqüências logo apareciam, pois se há algo nefasto na administração de uma empresa, será aquele sujeito que é divinizado por ela. Nada contra os deuses e sim contra a bajulação exagerada. Complementava aquele presidente, com base em sua experiência, que devíamos ser comedidos nos elogios e, se os fizéssemos que fossem para enaltecer o que foi feito e não a quem o fez, ou seja, elogiar a ação e não o sujeito. No fundo, uma forma inteligente de evitar, ou postergar, que o profissional se autodestruísse na empresa e que prejudicasse o desempenho do todo.
É fácil perceber, por mais irônico que pareça, que as estrelas luminosas de hoje nas empresas, serão amanhã cadentes e problemáticas. E pior do que ter um monstro será ter dois. Quando um empresário cria um monstro, creiam que, pela lógica e pelo hábito, outro será criado e, em conseqüência, conforme Newton, dois corpos não poderão ocupar o mesmo lugar no espaço ao mesmo tempo. Isto significa que dois egos inflados serão responsáveis por grandes escaramuças na busca do trono e dos holofotes. Talvez comece aí, na busca do poder e do prestigio, a famosa criação das tribos hostis nos bastidores das empresas.
Sem hipocrisia, se um empresário quer mesmo conservar um gênio talentoso na empresa, será bom que ofusque, ao máximo de tempo, o seu brilho. E para evitar que o mesmo se sinta desvalorizado e reclame o reconhecimento, será bem conveniente, no final de um ano de bons resultados, gratificá-lo com um ótimo extra no bolso. Digam o que quiserem os psicólogos de plantão que defendem as teorias do mérito, mas ainda não inventaram algo melhor do que inflar a conta no banco. E ponto final. 
Leia também o blog do mesmo autor: https://vendasvarejo.wordpress.com/

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

A PRESSÃO NA GESTÃO...


Da série Bastidores do Varejo, de Sérgio Muller 
Muito antes de Denis Papin, em 1679, ter inventado a panela de pressão, a pressão já existia. Os motivos que levaram o inventor a criar a panela, eram os mesmos, tempos depois, daqueles que revolucionaram as indústrias e outros negócios. Todos queriam resultados mais rápidos, econômicos e eficazes. Nada melhor do que a pressão, indiscutivelmente...
E eles fizeram escola. Convenhamos que hoje, nada mais que não tenha pressão, funciona. Em qualquer negócio, em qualquer gestão, em qualquer operação.
Certa ocasião, um gerente de departamento de uma grande empresa confessava-me que não suportava mais tanta pressão. Afirmava, nas suas confidências, que não conseguia mais ter noites de sonos tranquilas. Acordava na madrugada e sentava à beira da cama, num desespero completo. Temia, sob todos os aspectos, o temperamento do seu superior. Muitas vezes, aguardava um agradinho do chefe, mas recebia um direto no queixo. Em outras, o inverso. A objetividade do chefe era direta e rápida, encurtando diálogos e decidindo questões problemáticas em frações de minutos. O cara não conseguia compreender os motivos daquela conduta e ele era atormentado pela intercalação sistemática das reações que vinham de cima. Tinha plena convicção que seu chefe era o Machiavel encarnado, mas reconhecia, entretanto, que o sujeito pensava alguns anos à frente. Talvez, por isso, não lhe sobrasse tempo para lero-leros tão comuns nos corredores de empresas.
Ele admitia que o ambiente, quando o big boss viajava, virava uma festa. Eram momentos de relaxamento total. Diretores, gerentes e funcionários circulavam faceiros nos bastidores. Decididamente a empresa ou, nesse caso, a casinha, ficava cor de rosa e             feliz. O problema é que, na selva que viraram os negócios, as casinhas felizes estão fadadas ao fracasso. Ou será que aquele que fica na lanterna das vendas merece sossego? Ou será que aquele que fica em primeiro nas vendas merece um relax? Não, ninguém merece, porque é preciso que haja pressão e mais pressão, pois, por mais incrível que pareça, tanto as glórias como as vitórias, conduzem a acomodação e ao desestímulo.
Os empresários experientes sabem disto melhor do que ninguém. Não é por acaso que, mesmo diante de períodos lucrativos, não sossegam e ficam cada vez mais obstinados. Sabem perfeitamente que a euforia deve ser celebrada com prudência porque o sucesso é um veneno que enfraquece seus homens.
A pressão preserva o lucro e o lucro preserva as pessoas. Então, a pressão é fruto da sobrevivência e só ele, o empresário, tem consciência de sua responsabilidade social com aquelas pessoas. Se o julgam como demônio, ficam tensos, porém vivos. Se o julgam como Madre Teresa, se atiram nas cordas e são mortos.
Já reparou como os chefes bonzinhos perdoam? Não é à toa que são adorados. Aprendemos, desde a infância, a gostar de professores tolerantes, pois esses não nos exigiam esforços. Por outro lado, com carrancudos mestres, é que, através da pressão, mais tínhamos que superar obstáculos.
É claro, existem muitas correntes que entendem que empresas que ganham títulos de excelência na gestão de pessoas têm funcionários que vivem mostrando sorrisos. Até pode ser, mas também não se espere que a felicidade esteja presente o tempo todo, porque quem quer ser excelente em alguma coisa, em primeiro lugar tem que ter excelência no lucro. E lucro, decididamente, não se consegue sem sacrifícios.
Pode parecer contraditório, mas a empresa que quer ser mais humana, não deve ser permissiva aos erros e nem deve exagerar na contemplação aos acertos. Se quisermos ter profissionais equilibrados, a crítica no objetivo de não desviá-lo do rumo, deve ser sistemática. E os elogios, com a mesma finalidade das críticas, não devem ser permanentes, pois aquele que é elogiado em demasia tende a ser excessivo na sua confiança. E excessos de confiança tornam frágeis os homens e afrouxam seus interesses.
 As empresas bem sucedidas são aquelas que sabem mediar concessões. Dar muito ou dar pouco são procedimentos equivocados,  levando ao conflito e a insatisfação na gestão do pessoal. As empresas que querem perpetuar-se devem conceder aquilo que anseiam seus funcionários, de uma forma que não os deixem com fome e nem os deixem saciados. Por isso, o correto, obstante estranho soar, é só dar o suficiente. Quando os empresários são comedidos estarão, em todos os aspectos, conservando sua gente e os mantendo no emprego. A pressão de um lado e as lentas concessões de outro, servirão para que todos se conscientizem que generosidade demais pode gerar empregos de menos. Em razão disto, há que celebrar nas empresas os benefícios que são recebidos, pois servirão eles para compensar o ritmo intermitente, e por vezes invisível, da pressão necessária.
Todos os subordinados, quando as concessões acontecem, se satisfazem com o parcelamento das melhorias, as quais, mesmo que eles não se apercebam, os mantêm fiéis à doutrina da casa.
 Já reparou que, principalmente nas grandes empresas, em intervalos de tempo, aparecem alguns benefícios?
Eu nunca me esqueço de um empresário que, certa vez, me dizia: “Na maioria das vezes, podemos melhorar em muito a vida de nosso pessoal, mas a prudência nos orienta que não devemos ser demais generosos, pois esta precipitação pode gerar mais adiante, a expectativa de repetirmos o gesto. E, em verdade, lá adiante, não sabemos se poderemos.” A iminência desta reação faz com que os benefícios concedidos sejam dados em prestações homeopáticas. O dueto remuneração e beneficio é o principal conteúdo das pressões que surgem de baixo. É conveniente, portanto, que o empresário conceda o que reivindicam, mas aos poucos e em períodos intercalados. Ou, como bem se conhece nas rodas das associações patronais, “o bem tem que ser feito a prazo e o mal é melhor que se faça à vista...”
Por mais que estes fatos possam parecer desumanos, acreditem ou não, é uma alternativa eficaz para manter funcionários estáveis. Paradoxalmente, o método preserva-os no quadro, pois na expectativa de novas melhorias adiante, permanecem empregados. Nos atuais dias, isto faz grande diferença.
Sinceramente, nunca conheci nenhum empresário bem sucedido que fosse sempre bonzinho. E isto está longe de ser uma simples coincidência...

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quinta-feira, 23 de julho de 2015

NÃO ADIANTA ENFEITAR...

Da série BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Muller.

Steve Jobs e Apple, Bill Gates e Microsoft.
Qual a importância destas associações para quem tem uma empresa? Se você tem uma empresa e pensa unicamente na sua atividade em si, tipo assim comprar e vender, então você  não explora a sua marca pessoal, não é mesmo? Ou, pior ainda, se você não explora nem mesmo a marca de sua empresa, seja bem-vindo ao grupo dos lojistas que vendem produtos e preços e adoram clientes oportunistas.

Ao longo do meu trabalho com consultorias ao varejo, vejo estes filmes repetidamente, não só por parte dos lojistas, mas também através daqueles que o assessoram em sua comunicação com os clientes. Preço e Produto, Produto e Preço e alguns “enfeites” pensando que aquilo fará diferença com a concorrência. Diria que eles ainda têm sorte, pois a dita concorrência também não se diferencia em nada e temos, então, um mercado em que a farinha é tudo do mesmo saco.

Ora, sabemos atualmente que os produtos que existem em uma loja são uma espécie de commodities. Marcas de renome, tipo assim Nike, Adidas, Ellus, etc e etc, resguardadas as espécies, são a mesma coisa que soja, isto é, todo mundo tem e as únicas opções são marcar muito e vender pouco ou marcar pouco e vender muito. Entenderam até aqui?

A marca é o ativo mais valioso de uma empresa, tipo assim a Apple. Imagine se a esta marca se agrega outra marca, tão ou mais importante que ela, tipo assim a marca pessoal de Steve Jobs. Precisa dizer mais alguma coisa? Há algo a contestar?

Voltemos então ao nosso lojista de médio e pequeno porte, aquele do preço e do produto, aquele que enfeita a loja, enfeita o anuncio, enfeita o folder, enfeita o uniforme do pessoal... A questão com ele é quando ele vai compreender que ele próprio pode ter sua marca. A questão com ele é quando ele vai valorizar a marca de sua empresa. Isto, por incrível que pareça, é a parte mais árdua de uma consultoria. Infelizmente, o fracasso é parceiro de quem não faz nada diferente do que o vizinho faz, porque a inovação é uma afronta para os acomodados. Há que mudar a coisa mais complicada das pessoas, a mentalidade.

Ora, em um mundo em que os produtos viraram todos iguais e que poucos têm a exclusividade em algumas coisas, é natural que as margens de lucro sofram pressões. Então é natural que aqueles lojistas bem sucedidos tenham pensado, antes que os fracassados, que a fidelidade do cliente, no seu planejamento estratégico de marketing, ocupava um papel prioritário.

Pensemos de maneira radical e evitemos as complexidades teóricas do marketing. Primeiro, reconheçamos que não há, e nem nunca houve, fidelidade total de alguém. Dito isso, afirmo que para obter, pelo menos, a fidelidade parcial dos clientes é preciso que o lojista se livre do maldito complexo de vira-latas, o qual lhe tolhe a ousadia de surpreender o consumidor.

A fidelidade começa por ter um padrão que seja reconhecido, seja por uma atitude gerencial, seja por um “splash” num material gráfico de vendas. A fidelidade começa quando há objetivos sistemáticos em ser diferente para o cliente, em lhe apresentar algo novo, algo que crie intimidade pessoal, algo que ele veja realmente um valor. A fidelidade não começa quando você promete que o cliente terá o melhor atendimento na loja. A fidelidade começa sim quando ele tem realmente o melhor atendimento na loja. A fidelidade se consagra quando o cliente, por fim, conhece um gerente, se relaciona com o gerente e, mais consagrador ainda, sabe que este gerente poderá lhe ajudar sinceramente. A marca registrada, isso é do que eu falo.

É claro, existem programas e softwares que estudam, premiam frequências e outras vantagens, mas, obstante o valor desta tecnologia, não será ela que vai modificar o contexto se a gerencia não entender o valor de sua influencia pessoal ou o da marca da sua empresa.


Se a gerencia quiser dar o primeiro passo, comece por entender o Ativo e o Inativo da carteira de clientes do seu crediário. Quando ele constatar que não conhece pessoalmente os seus melhores clientes, pode ser que a ficha caia...

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terça-feira, 21 de abril de 2015

UMA COISA É UMA COISA, OUTRA COISA É OUTRA COISA...

Da série Bastidores do Varejo, de Sergio Muller

Era uma atrativa loja de departamentos numa área de mil metros. Uma empresa familiar e conservadora que lá estava há muitos anos e que vinha sofrendo, gradativamente, o desgaste causado pelo constante ingresso no mercado de concorrentes menores, porém muito mais dinâmicos. 

O seu layout era o mesmo de duas décadas passadas, os seus balcões envernizados residiam no mesmo ponto sem arredar o pé nem pra lavar embaixo. Mesmo assim, ainda conservava uma boa parte de seus clientes tradicionais. Talvez estivesse certo o velho dono quando me dizia: “se eu mudar as coisas eu perco os meus clientes, pois eles sabem direitinho onde fica tudo o que eles querem”.

Quando a família me chamou para este trabalho, me pediram somente uma coisa. Que eu não sugerisse modernizar a loja. Eles a queriam assim como ela estava, tal e qual o seu fundador a concebeu. Acima de tudo queriam o que todo mundo quer, lucro. Tinham eles um software “meia boca” que não queriam se desfazer, mas que era o suficiente para as informações que eu queria.

Quando diagnostiquei os problemas da loja, inesperadamente, percebi que a receita cobria perfeitamente os custos de sua operação e ainda lhes sobrava um bom lucro. A pergunta, então era, parodiando o Fantástico, “cadê o dinheiro que estava aqui?”. Amargavam eles empréstimos bancários para sustentar o negócio, coisa essa que sabemos, é um péssimo negócio. O que lhes sobrava saía pela porta da loja e entrava pela porta do banco. E essa história de portas sempre acaba com a primeira porta fechada, a qual, se ainda não estava, a hipotecada estava.

Ora, uma loja tem dois grandes custos a serem controlados com mão de ferro. Se os seus próprios custos estavam controlados, o custo que restava descontrolado estava. Via de regra, o maldito custo dos fornecedores. A família alegou, e com razão, que precisavam continuar comprando, pois caso contrário, a coisa ia para o país da Cucuia.

Quando, principalmente, se tem uma loja de departamentos, a primeira coisa, a mais fundamental de todas, é saber distinguir os tipos de estoques, pois eles não são e nunca serão iguais, aliás, nem mesmo para os pequenos lojistas. Por exemplo, uma bermuda de Tactel vende só no verão e uma calça de Jeans vende o ano inteiro, independente da estação. Ora, então algumas coisas são sazonais e outras são permanentes, não é mesmo? E como tal, coisas diferentes devem ter métodos diferentes. E qual desses dois produtos tem mais riscos de trazer prejuízos para o lojista? Evidentemente será a bermuda, que se sobrar, ficará seis meses paga e encaixotada. A calça jeans lá estará no cabide o ano inteiro e basta comprá-la mensalmente pela proporção que vender que prejuízo não haverá.

É bom que eu explique tecnicamente estas diferenças, pois o "furo da bala" do nosso cliente residia neste endereço.

O QUE É ESTOQUE PERMANENTE (BÁSICO)
São aquelas mercadorias que tem demanda contínua por muito tempo sem serem afetadas pelo clima ou por alterações de design. É um estoque extremamente simples no controle, já que as compras destas mercadorias podem ser programadas mensalmente com reposições normais. O lojista pode atuar, dependendo da entrega de seus fornecedores, com cobertura de, no máximo dois meses de estoque. Sua importância no mix de uma loja é fundamental e a estratégia vital é aumentar gradativamente a sua participação nas vendas. As vantagens do Estoque Permanente:

·        Margens estáveis e lucrativas
·        Riscos mínimos no investimento
·        Podem ser programadas por meses adiante pela média de vendas
·        Riscos mínimos de sobras 
·        Possibilidade de ter marca própria
·        Podem operar com baixo estoque
·        Giros de estoque com fácil controle
·        Lucratividade o ano inteiro
·        Raramente entram em liquidações
·        Possibilidade de expansão no mix 

O QUE É ESTOQUE SAZONAL
O estoque sazonal é aquele que atenderá, basicamente, às duas coleções do ano (Inverno e Verão), assim como é composto por produtos de modismos e eventos, isto é, são aqueles produtos de vida curta no ponto de venda. Ao mesmo tempo em que renovam a loja e atraem consumidores atualizados, trazem o grande risco de encalhes ao estoque. A habilidade do comprador determinará se o sazonal traz lucro ou prejuízo a uma empresa. A grande e melhor estratégia do sazonal é entrar antes que comece e sair antes que acabe. Nos indicadores, começa com giros máximos e termina com giros mínimos. Existem ainda outras perdas indiretas com as sobras destes estoques:

·        Depreciação de embalagens e produto
·        Reexposição inoportuna no layout do próximo ano
·        Produtos fora de tendência próximo ano
·        Depreciação imagem da loja
·        Quebra de margens da próxima coleção
·        Capital investido inerte nos depósitos


Resumindo, estas simplicidades foram adotadas no planejamento de compras daquela antiga loja, a qual, aliás, continua sendo antiga e tradicional, porém dois anos depois, nada mais deve para ninguém. Se vocês querem saber, os concorrentes continuam chegando e lá está ela, firme e despreocupada, com seus balcões envernizados...

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QUANDO MENOS É MAIS...

Da série BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Muller
Se há um assunto, entre lojistas, que causa grande interesse é a forma com que se compra dos fornecedores. Cada um tem um jeito, cada um tem um sistema, ora copia dos outros e por aí vai. Muitas redes de pequeno ou médio porte se orientam pelos recebimentos futuros para estabelecer suas quotas. E também existem aqueles que compram conforme aparecem as boas oportunidades, quando, às vezes, nem sequer precisam daquele estoque, mas se é barato, quem sabe não dá certo...

Tenho visto muitos jeitos e, sinceramente, a maioria ainda não despertou para compras através da rotação, giros ou coberturas de estoques. Pergunte-se como que os grandes grupos varejistas (Renner, Riachuelo, Marisa, C&A, etc) estão sempre com suas araras lotadas de novidades. Não lhes parece que estas lojas renovam as mercadorias toda semana? Pode ter certeza que não é só o dinheiro que sobra a eles que lhes proporciona tamanha organização. Alías, a organização deles é que fez com que, primeiro, lhes sobrasse dinheiro. Você não tem curiosidade de saber como estas redes, ano após ano, só tem resultados azulados? Você não gostaria, respeitando a proporcionalidade, de ter o mesmo êxito destes caras?

Olhe agora mesmo para o seu estoque e, numa passada de olhos, veja quanta coisa obsoleta você tem. Veja a quantidade de mercadorias de coleções passadas e calcule o percentual de lançamentos ou novidades que há em seu estoque. Posso apostar que o resultado não lhe agrada muito. E você sabe melhor do que ninguém que o que vende em sua loja é a novidade. O resto só vende quando você passa uma tesoura nos seus preços...

Então, diante de sua expectativa, acompanhe algo que dificilmente você encontra por ai dando canja, mesmo em livros técnicos de compras.

Você gostaria de saber qual o sistema que as grandes corporações varejistas utilizam para comprar? É claro que quer, pois você sabe que eles têm sempre um estoque abotoado, “novinho em folha” e de fazer inveja a qualquer lojista. Além do mais, você que já andou pelas lojas deles, sabe que os produtos deles são tão bons que se vendem sozinhos e que vendedores lá são coisas quase do passado. Se os clientes enchem sacolas sem ninguém por perto vendendo, se não falta numeração, cor ou tamanho é prova de que existe um grande planejamento por trás. Nenhum produto está ali sem motivo ou na base da emoção.

Pois bem, para ter este privilégio, saiba que eles, com algumas diferenças, usam o sistema de Rotação ou Giro de Estoque para determinar o que denominam de Planejamento Financeiro de Compras. Este documento ou relatório - a bíblia do varejo deles - é a alicerce de tudo o mais que se constrói lá dentro. O que impressiona é que este artificio, tão fundamental, raramente é usado pelos pequenos ou médios lojistas, como se o tal planejamento fosse, será que não, a fórmula da Coca-Cola.

Vamos fazer um exercício? Pegue um setor, depois pegue outro e, por fim, calcule o global, pois aqui está a  receita, passo a passo, desta tal Rotação de Estoque:
Faça o seguinte cálculo:

1 - Valor Financeiro do Estoque a Custo (tem que ser a custo) de cada um dos últimos dois meses 
2 - Some os dois valores dos estoques e divida por dois. O resultado será o Estoque Médio.
3 -  Valor da Venda a Custo (tem que ser a custo) do último mês
4 - Divida o valor do Estoque Médio pelo valor da Venda a Custo
5 - O resultado será o índice que chamamos de Rotação ou Giro de Estoques

Exemplificando, digamos que o seu estoque médio a custo é de R$ 600.000,00 e a sua venda a custo no último mês foi de R$ 150.000,00, então você tem uma Rotação (ou Giro) de Estoque com índice de 4,0. Este índice significa que você tem estoque para quatro (4) meses. Simples, não? Quanto mais alto o índice, mais estoque em excesso você tem e mais capital você está empregando sem necessidade. Em resumo, quanto menos estoque acumulado e envelhecendo, mais você vende. Menos é mais...

Rotação ou Giro ideal é definido pelo lojista de acordo com o mix de sua operação e conforme as regras e qualidade de entrega de seus fornecedores. Por exemplo, lojistas enxutos que atuam com confecção preferem ficar com giros até 2,0 (dois meses) de estoque. Já quem atua com calçados tende a ter giros um pouco mais altos principalmente em função de numeração.

Sabendo o índice global da loja, o lojista parte imediatamente para ter também os índices de rotações por setores, pois desta forma ele conhece imediatamente as distorções em seus estoques. Estes parâmetros é que servirão para a elaboração do Planejamento Financeiro, pois para cada setor, observando-se a rotação, haverá uma quota mensal de compras determinada para manter o equilíbrio do estoque.

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segunda-feira, 20 de abril de 2015

UMA LOJISTA APAIXONADA!

Da série BASTIDORES DO VAREJO, de Sergio Muller
Se em uma loja as vendas de um determinado setor ou grupo representam 10% do total, espera-se que o estoque deste segmento igualmente represente os mesmos 10%,  certo? Errado! Pelo menos para 80% dos lojistas…

A experiência tem me mostrado que de cada dez lojistas somente dois tem conseguido manter este equilíbrio. Coincidência ou não, os 20% que alcançam, ou quase, este resultado são os que melhor saúde financeira tem nos seus negócios. Melhores vendas, bom fluxo de caixa, contas em dia e estoques renovados são alguns dos aspectos positivos obtidos por quem cuida desta relação percentual das vendas com o estoque. Evidentemente que este cuidado deve estar associado com uma cobertura coerente de estoque.

Certa ocasião, um lojista, dono de tres lojas de departamentos no norte paranaense, promovia um verdadeiro mutirão do pessoal para economizar despesas com luz, telefone, água, material impresso e, pasmem, até o desperdício de clips tentavam controlar. É obvio que quaisquer campanhas desta natureza são saudáveis e devem ser feitas periodicamente até mesmo pra dizer ao pessoal, de forma incisiva, que o negócio não é gastar.

No entanto, paradoxalmente, compravam-se produtos à revelia sem os menores critérios técnicos. O estoque estava inflado e, além disso, com enormes distorções de volumes setorizados se comparados com a proporção das vendas. Ora, se o caixa está comprometido com os fornecedores e com os estoques desnecessários, não serão toneladas de clips economizados que sanearão o problema!

Vou lhes dar um exemplo do imbróglio:
A empresa tinha um setor de Calçados Femininos e Bolsas que participava com 11% da receita. No entanto as mercadorias deste setor representavam 21 % do estoque. Por si só, isso já desequilibrava o negócio. Além desta encrenca banal, o referido setor vinha apresentando margens muito baixas, e não lucrativas, em função daquelas providências óbvias de quem tem excesso de estoques: promoções e liquidações. Por exemplo, a Linha de Jeans precisava urgentemente de estoques em Faixas de Preços mais baixas, mas não havia capital disponível para comprar. E onde estava o dinheiro? No excesso do estoque do Calçados e Bolsas.

Ao aprofundar-me no problema, constatei que a compradora – a esposa do empresário -, como ela própria dizia, era uma apaixonada por calçados e bolsas. E quem não sabe que compradoras apaixonadas são fascinadas por malas de representantes? Mulheres sempre tiveram um frisson por estes produtos, mas se espera que não exagerem, pois, pelo que parecia, suas clientes não tinham tanta paixão quanto ela. Disse-lhe então, claramente, que paixões como aquela fulminam não o coração, mas sim o balanço da empresa. Mostrei-lhe, de forma cientifica, os números e o prejuízo causado.

Não custa nada lembrar que este tipo de procedimento por parte de quem compra é um prato cheio para a ambição dos fornecedores. O irônico é que, naquele mesmo dia, dois fornecedores de calçados estavam agendados para que ela atendesse. Naquelas alturas do campeonato, rezei para a que a paixão tivesse esfriado.


Então, sobre este contexto, vai uma dica bem importante e que, talvez, seja de grande valia para os lojistas.  No próximo balanço, ao saber do seu estoque – espero que sejam feitos por setores – separe os valores e calcule respectivamente o percentual de cada um na participação do negócio. Depois compare quais as participações que cada um tem na venda. Diagnostique e parta para a ação equilibrando o seu financeiro. Já antecipo que vai demorar pra botar as coisas no eixo, mas lembre-se: O dinheiro que você quer não está no banco e sim no seu próprio estoque.

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